A encantadora arte de não falar

Como não se apaixonar por Januário? Você não conhece Januário?

Ele é um personagem do interior, que chega ao teatro calado, de maneira sutil e apresenta um espetáculo para lá de especial, vale muito a pena embarcar nessa viajem, onde até mesmo o trem passa…

Falar do teatro mudo é bem interessante, uma arte tão significativa, que remete ao glorioso Charles Chaplin, também ao renomado Marcel Marceau, mímico mais popular do século XX, para compreensão do quanto corpos e gestos falam com precisão.

A arte grita mesmo sem emissão de ruído, mesmo ao atravessar momentos sombrios, doloridos e angustiantes, a arte permite deslizar por sua nobreza, para enxergar a capacidade de conexão do espectador com a beleza do outro, do mesmo modo que a arte, despretensiosamente, possibilita a desconexão dos mais terríveis sentimentos e com sua dimensão e magia faz com que seja possível viajar para bem longe, para muito além do próprio umbigo.

Às vezes emociona e faz chorar, mas não por medo, mas por resgatar a beleza, as memórias de cada espectador. Uma experiência rica e dignificante. E se tem algo que se pode dizer do espetáculo “Acorda, Januário!” é que ele desperta a atenção de todos, a família vai se divertir e rir junto, da mesma coisa, isso é fato!

O ator carrega consigo o grande desafio de falar sem falar. E a vida do artista brasileiro segue, como um verdadeiro equilibrista, entre a dificuldade de viver, continuar no seu ofício e fazer nascer nos seres humanos, sorrisos, encantamentos e análises, que poderão levá-los a transformações relevantes.

Fernando Vasques é palhaço, mágico, mímico e tudo mais que se necessita para falar sem falar. E é, justamente, falando sem falar, que seduz a todos que o assistem. Ah! Vale dizer, que com mais um pouco de ilusionismo, o público estaria a frente de um Harry Houdini!

Uma verdadeira poesia recitada por gestos corporais, tamanha delicadeza, técnica, vigor e ensaio. Há nobreza e coragem nessa apresentação. Cada movimento, aparentemente, milimetricamente calculado, não admite erros, o ator está sempre com um olhar forte e determinado, seguro e assertivo.

Os objetos em cena contribuem para diversas cenas. Cordas, malas, sanfonas, cadeiras e mesa! O lirismo está presente em cada tocar, em cada objeto, como quando contracena com uma bola, que o ajuda a compor a cena.

O diretor Ronaldo Aguiar foi célebre na construção desta obra, porque a dirigiu com talento, sofisticação, cuidado e serenidade, todos os movimentos do artista no palco são precisos. Existe uma delicadeza ímpar em “Acorda, Januário!”, que permite imaginar e faz reconhecer a façanha sublime do olhar cuidadoso dessa direção.

O espetáculo é da Cia. Beira Serra, fundada em 2014. “A Cia Beira Serra pranta poesia no chão de cada dia e é através do circo e do teatro que ela faz suas estripulias nesse rincão sem fim…”, dizem os integrantes desse coletivo.

Laura Françozo assina o figurino, lindo demais da conta, sô! É preciso entender de movimento para vestir um profissional que sobe, desce, anda, agacha, dança, não para um segundo sequer!

A indumentária é circense, mas com cores brandas, e não espalhafatosas. Equilibrada! Laura entende bem o que significa, menos é mais!

O cenotécnico é o próprio solista, afinal ele sabe o que precisa e como irá utilizar os objetos em cena!

A iluminação, elaborada por Robert Coelho, é precisa, na medida certa. Tudo muito ponderado, simples e eficaz aos olhos daqueles que apreciam arte.

Dael, um nome que se não criou marca, há de… o profissional é responsável pela sonoplastia, o braço direito do ator em cada uma de suas performances. Que magnitude! Eficiência é seu sobrenome, uma assinatura que qualquer direção gostaria de ter em sua ficha técnica. Com sensibilidade, Dael demonstra entender também de hipnose, pois é o que ele consegue fazer por meio dos sons do espetáculo, puro encantamento. A harmonia entre a sonoplastia e o ator é perfeita, de absoluta sincronia, uma das melhores já assistidas! Salve Dael!

Fernando Vasques, como é possível, mesmo após tantos movimentos agitados e bruscos da palhaçaria, tocar um instrumento de sopro, com tanta doçura? A interpretação da música “O trenzinho do caipira”, do grandioso Heitor Villa-Lobos, é um momento emocionante, nada tão artístico, quanto o movimento dos eternos modernistas de 1922, eternizados na memória, com louvor e orgulho. Que percepção arrebatadora!

Tudo bem que a palhaçaria atropela e mata a eterna e memorável surpresa, faz parte do espetáculo proposto, mas ainda bem que está em uma plataforma digital, onde é possível degustar do notável momento quantas vezes forem desejadas.

Fernando Vasques apresenta um personagem divertido, mudo, porém notório. Com movimentos difíceis, mesmo em um monociclo, onde executa malabarismos, haja preparo físico para tal proeza. Cada mímica executada pelo personagem é de deixar qualquer um embasbacado. Expressões corporais levam a plateia virtual à graça, graça que todos estão precisando reencontrar.

Mais uma vez, o Sesc não para de inovar e surpreender com sua curadoria democrática, que traz artistas de todos os cantos e os incentiva a continuarem em suas trajetórias, superando as dificuldades do momento.

A Cia Beira Serra permite que se elevem pensamentos, faz sorrir e faz chorar, emociona com a beleza e a pluralidade da arte.

ACORDA, JANUÁRIO!

On-line e gratuito

Circuito Sesc de Artes

Disponível na plataforma YouTube, no canal do SESC Bauru

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=40bwvcM61u4

Classificação: Livre

FICHA TÉCNICA

Direção: Ronaldo Aguiar

Elenco: Fernando Vasques

Cenografia e figurino: Laura Françozo

Cenotécnico: Paulo Vasques

Iluminação: Robert Coelho

Sonoplastia: Dael

Arte gráfica e fotografia: Otávio Seraphim

Produção executiva: Cia Beira Serra