Montagem do O Bonde, dirigida por Roberta Estrela D’Alva, parte de uma história real de crianças negras escravizadas décadas após a abolição para discutir a permanência da violência racial no Brasil
A CAIXA Cultural Rio de Janeiro apresenta, de 5 a 15 de novembro, o espetáculo “Desfazenda – Me Enterrem Fora Desse Lugar”, no Teatro Nelson Rodrigues, no Centro do Rio de Janeiro. Com direção de Roberta Estrela D’Alva e dramaturgia de Lucas Moura, a montagem do coletivo teatral paulistano O Bonde é livremente inspirada no documentário “Menino 23 – Infâncias Perdidas no Brasil”, de Belisario Franca, que investiga a história real de crianças negras retiradas de um orfanato no Rio de Janeiro e submetidas à escravidão em uma fazenda no interior de São Paulo, em 1930, décadas após a abolição. As apresentações acontecem de quinta a sábado, às 19h, e aos domingos, às 18h. Nos dias 8 e 15 de novembro, as sessões contam com acessibilidade em Libras e bate-papo com o elenco.
Premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como Melhor Espetáculo Virtual de 2021 e indicado ao Prêmio Shell na categoria Melhor Dramaturgia, “Desfazenda” propõe uma reflexão crítica sobre a continuidade da necropolítica que afeta os corpos negros. A obra integra a Trilogia da Morte, pesquisa do grupo sobre a violência direcionada à população negra em diferentes fases da vida, e utiliza a linguagem teatral para aproximar acontecimentos históricos das questões raciais que permanecem presentes na sociedade brasileira.
O espetáculo conta com patrocínio da CAIXA e do Governo do Brasil.
Teatro, palavra e resistência
Segunda montagem do Bonde e primeiro espetáculo adulto do coletivo, “Desfazenda” aposta na força da atuação e da palavra para construir sua narrativa. A encenação minimalista reúne quatro intérpretes em cena, sem adereços, em um espaço no qual luz e som contribuem para criar atmosferas e conduzir a experiência do público.
Influenciada pelo teatro hip-hop, pelo spoken word (poesia falada) e pela cultura das batalhas de poesia, a montagem explora ritmo, musicalidade e presença cênica como elementos fundamentais da dramaturgia. A palavra conduz a narrativa e estabelece uma relação com o público que combina experiência sensorial e distanciamento crítico.
Na história, as personagens 12, 13, 23 e 40 são pessoas negras que, ainda crianças, foram salvas da guerra por um padre branco e passaram a viver em uma fazenda, onde realizam tarefas diárias sob a supervisão de Zero, um homem negro um pouco mais velho. O padre permanece na capela, a guerra nunca chega à fazenda e, sempre que as personagens questionam as regras daquele universo, o sino toca e a rotina recomeça. Até que essa ordem deixa de se sustentar.
História e memória: a inspiração em “Menino 23”
O espetáculo dialoga com a história de mais de 50 meninos negros retirados de um orfanato no Rio de Janeiro e levados para uma propriedade rural no interior de São Paulo, onde foram isolados e escravizados. O caso, ocorrido em 1930, expõe a permanência de práticas de exploração racial após a abolição e a influência de ideais eugenistas na formação da sociedade brasileira.
Ao transformar essa história em matéria teatral, “Desfazenda” amplia a discussão para além da reconstituição dos fatos. A obra questiona as estruturas de poder que sustentam o racismo e a desumanização da população negra, propondo uma reflexão sobre as continuidades entre o passado escravista e as formas contemporâneas de violência.
A escolha do Rio de Janeiro para a temporada acrescenta uma dimensão simbólica à montagem. A cidade foi o ponto de partida da história que inspira o espetáculo e também um dos principais centros do tráfico de pessoas escravizadas no Brasil. Apresentar a obra nesse território significa retomar essa memória e abrir espaço para o debate sobre racismo estrutural, desigualdade e justiça social.
O título “Me Enterrem Fora Desse Lugar” expressa o desejo de romper com estruturas embranquecidas, hegemônicas e violentas. Nesse sentido, o espetáculo propõe uma reflexão sobre a possibilidade de existir com dignidade e sobre a necessidade de enfrentar mecanismos históricos de opressão que continuam a determinar as condições de vida da população negra.
O Bonde: pesquisa e criação negra
Fundado em 2017, O Bonde é um coletivo artístico formado por artistas negros e periféricos, oriundos de diferentes períodos da Escola Livre de Teatro de Santo André. O grupo desenvolve uma pesquisa de linguagem que tem na palavra e na narratividade ferramentas de acesso, denúncia e ampliação das discussões afro-diaspóricas.
A abordagem épica da palavra, entendida como estratégia de distanciamento dramático e aproximação narrativa, orienta o trabalho do coletivo. Em suas criações, O Bonde articula investigação estética e reflexão racial para abordar questões históricas e contemporâneas relacionadas às experiências negras no Brasil.
Espetáculo “Desfazenda – Me Enterrem Fora Desse Lugar”
CAIXA Cultural Rio de Janeiro
Teatro Nelson Rodrigues
Avenida República do Paraguai, 230, Centro, RJ
Curtíssima temporada: 5 a 15/11
Quinta a sábado, às 19h; domingo, às 18h
Horário de funcionamento da Bilheteria:
Quarta a domingo, das 13h às 19h
Ingressos: R$40 plateia e R$20 balcão
Vendas online:
https://www.bilheteriadigital.com/caixaculturalrj
Acessibilidade:
Sessões com intérprete de Libras nos dias 8 e 15/11
Bate-papo com o elenco: Após as apresentações dos dias 8 e 15/11
Classificação indicativa: 14 anos
Informações: (21) 3083-1785
site www.caixacultural.gov.br
Instagram: @caixaculturalrj
FICHA TÉCNICA
Direção: Roberta Estrela D’Alva
Dramaturgia: Lucas Moura
Elenco: Ailton Barros, Filipe Celestino, Jhonny Salaberg e Joy Catarina
Vozes Mãe e Criança: Grace Passô e Negra Rosa
Direção Musical: Dani Nega e Roberta Estrela D’alva
Produção Musical: Dani Nega
Músicas “Saci” e “Tocar o Gado”: Dani Nega e Lucas Moura
Sample “Menino 23”: Belisário Franca
Treinamento e Desenho de Spoken Word: Roberta Estrela D’Alva
Cenografia e Figurino: Ailton Barros
Desenvolvimento de figurino: Leonardo Carvalho
Desenho de Luz: Matheus Brant
Montagem de Luz: Matheus Brant e Leticia Nanni
Operação de Luz: Matheus Brant , Nayka Alexandre e Leticia Nanni
Técnico de som: Hugo Bispo
Cenotecnia: Douglas Vendramini e Helen Lucinda
Assessoria de Imprensa: Monteiro Assessoria
Produção: Corpo Rastreado
Realização: O Bonde
Crédito Foto: Noélia Nájera
















