Mais um herói negro, que passou pelo Brasil, Baquaqua e escreveu aquela, que até hoje é considerada a única autobiografia de um ex-escravizado, que viveu no Brasil.
Um espetáculo que todos precisam assistir, para entender ainda mais profundamente a história dessa gente rica em conhecimentos e tradições, sequestrada da África de forma desumana, impiedosa e triste.
O espetáculo é ritmado do atabaque ao agogô. E também isso, os espectadores se encantam, se conectam com essa delícia cultural, que só mesmo a Mãe África pode oferecer. Ser multicultural é uma das facetas brasileiras e neste espetáculo, os espectadores viajam sem sair do lugar!
Wesley Cardozo interpreta Baquaqua de maneira visceral, o ator negro se apropriou do personagem com gana, é notável a sede do ator em representar sua ancestralidade, sempre com a forte intenção de mostrar o quanto aquelas correntes ainda devem ser quebradas.
A história desse escravo dilacera o coração, no entanto, a beleza da luta pela sobrevivência e sua resistência são exemplos a serem seguidos e necessários até os dias atuais. É feita uma imersão na história e nos fatos, como forma de conscientizar a sociedade, pra que não permitam retroceder ao tempo que jamais poderão apagar.
O ator mescla de forma inteligentíssima a história de Baquaqua com as mazelas dos dias de hoje, parece um professor com uma didática leve, que prende a atenção dos ouvintes. E tem êxito! Aula brilhante!
Baquaqua, africano escravizado no Brasil, fugiu para Nova Iorque e foi salvo por alguns abolicionistas. Mas o que chama mesmo a atenção em toda narrativa é a performance cênica de Wesley em sua dramaturgia educadora e voraz, com excelente texto de Rogério Athayde, que o escreveu com sapiência.
As histórias se cruzam com culturas diversas e universais. Explicações de ditados populares, na valiosa contribuição dessa competente dramaturgia, adequada e necessária a um Brasil tão carente de educação.
E assim, mais um artista negro disposto a não se calar, se impõe brilhantemente em cena. Trajado com figurinos belíssimos se faz potente. Carla Costa soube escolher bem as indumentárias, há elegância.
O cenário é simples, mas percebe-se zelo em sua construção, Silvia Portugal trabalhou com virtude.
Na verdade, falar sobre esse espetáculo, nesse momento sombrio que o Brasil e o mundo atravessam, é muito importante, pois o país continua mergulhado em um racismo estrutura, entranhado na sociedade e cabe a quem é lúcido e tem voz, gritar. Isso alguns artistas fazem muitíssimo bem. O que é inconcebível é continuar com esse racismo velado, incabível, brega, insano, fazendo parte dessa sociedade.
O Teatro, como sempre, grita e faz do seu palco, italiano ou não, um verdadeiro espaço democrático. Os artistas se misturam e usam do seu direito de fala, unem vozes para dar um basta ao que não é mais possível existir.
São Luiz Gama, Elza Soares, Mauhin e agora Baquaqua vindo dizer que: todo ser humano, venha de onde vier, seja como for, tem seu valor e seus heróis.
E não é só no Teatro que a resistência reverbera, a Escola de Samba Porto das Pedras trará, no próximo ano, a história de Mãe Stella. Uma preta, baiana, formada na Universidade Federal da Bahia, escritora com dois livros publicados e um prêmio jornalístico pelo Estadão, na condição de fomentadora cultural, eleita em 2013, por unanimidade, para ocupar a 33º cadeira da Academia de Letras da Bahia, cujo patrono é o poeta Castro Alves.
É a ancestralidade, que não se deixa calar, a atualidade dos negros brasileiros atravessa a narrativa do ator e se mistura às tristezas dos porões dos navios negreiros, também chamados “tumbeiros”, pelas mortes que carregaram, ao atravessarem o Atlântico.
São os brasileiros retintos dispostos a dar vozes aos novos Zumbis dos Palmares. E o Teatro é exatamente isso, quando cumpre mais uma vez a sua missão, de também educar!
“Você não espera que alguém da minha raça,
com cabelos encaracolados e rosto negro,
e com um pequeno raio de saber,
chame a atenção de seus amigos no colégio.
Mas, farei o melhor que puder,
para provar que quero ser um homem.
É verdade, que meu corpo traz as marcas das correntes.
É verdade, que minhas costas trazem as cicatrizes das chicotadas.
Mas não é verdade, que o poder do tirano
tenha feito de meu coração um covarde.
Não! Ele é livre como quando eu brincava,
à sobra das palmeiras de minha terra natal.”
(Mohammah Gardo Baquaqua, 1854)
BAQUAQUA
On-line e gratuito
Única apresentação
Dia 18/6, às 20 horas
Duração 55 minutos
Transmissão pelos canais do Youtube da Dagba produções
https://www.instagram.com/baquaqua
Acesse: https://linktr.ee/baquaqua
FICHA TÉCNICA
Texto: Rogério Athayde a partir da biografia de Mahommah Gardo Baquaqua & Samuel Moore
Tradução: Robert Krueger
Direção: Aramís David Correia
Ator: Wesley Cardozo
Preparação Corporal: Tatiana Tiburcio
Direção de produção: Dagba Produções
Produção: Claudia Carnevale
Direção de fotografia: Henrique Oliveira (Panan Filmes)
Assistente de câmera: Vinícius Scalzilli
Figurino: Carla Costa
Assistente de figurino: Cassia Salles
Cenário: Silvia Portugal
Cenotécnico: Rostand Albuquerque (Galpão6centos Cenografia)
Iluminação: Wilson Reiz
Direção musical: Fabio Simões Soares
Sonorização: Anderson Silva
Programação visual: Douglas Zacharias
Rede social: Flavia Fontes
Visagismo: Bruno Matsolo (@barbeiroafricano)
Libras: Jadson Abraão (@jdl_traducoes)
Fotógrafa: Fernanda Dias