Entrevista com Mateus Solano (fevereiro de 2014)

por Renata Couto 324 views0

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“Aprendi a dizer a verdade nua e crua, com um pouco menos de panos quentes”

Alguns personagens marcantes e sua interpretação impecável fizeram de Mateus Solano, 33 anos, um dos atores mais admirados e queridos da atualidade. Nascido em Brasília, criado no Rio. Um candango de essência e alma cariocas. Mateus imprime personalidade aos seus personagens. Félix Khoury, de Amor à Vida, conquistou o Brasil. A novela terminou há mais de um ano e até hoje o personagem é visto, com suas tiradas debochadas, nas redes sociais.

PORTAL: Você nasceu em Brasília. Quando veio para o Rio de Janeiro?

Mateus: Nasci em Brasília porque meu pai é diplomata e só trabalha em capitais, mas meus pais são cariocas. Se não fosse a profissão do meu pai eu seria carioca da gema. Nasci em Brasília e fiquei lá pouco mais de um mês, de lá fomos para os Estados Unidos onde fiquei até os 3 anos, depois fomos para Portugal.  Meus pais se separaram e aos 4 anos de idade, vim com minha mãe para o Rio.

PORTAL: Sabemos que começou no teatro aos 15 anos. Sempre soube o que queria? Em algum momento pensou em desistir da carreira de ator?

Mateus: Desistir nunca. Mas para quem quer ser ator, especialmente num país como o nosso, que não valoriza a cultura, é difícil. Tem que se virar. Quando saí da casa da minha mãe e comecei a ganhar dinheiro, eu pensava em fazer dublagem, dar aulas de teatro, publicidade… porque ganhar dinheiro como ator é realmente muito difícil. Uma batalha que poucos conseguem vencer. Teve um momento que eu pensei -caramba, tô pagando para trabalhar! Então abri o leque e pensei em diversificar, produção, dublagem…

PORTAL: A campanha publicitária para a empresa telefônica Oi alavancou sua carreira e rendeu o convite para interpretar Ronaldo Bôscoli, na minissérie Maysa?

Mateus: Não, o que rendeu o convite, foi o fato de Nelsinho Fonseca, um dos poucos produtores da Globo que ainda busca talentos no teatro para a tv, ter me convidado para um teste da minissérie Maysa. Um papel que seria do Rodrigo Lombardi e que em cima da hora, não pôde fazer, porque surgiu outro papel na novela Caminho das Índias. Então fiz o teste sabendo que se fosse bem, teria o papel na minissérie. Foi bom para todos, pois o Rodrigo foi um sucesso como o Raji na novela e eu tive minha oportunidade. Mas ter mais de dez anos de experiência atuando em teatro é que me rendeu essa oportunidade e não a publicidade.

PORTAL: Lembramos de alguns personagens marcantes, os gêmeos Miguel e Jorge de Viver a Vida, o Mundinho Falcão, da minissérie Gabriela, Félix Khoury de Amor à vida. Algum favorito para você? Por quê?

Mateus: Não tenho personagem favorito. É engraçado, mas é uma profissão em que você se mistura com os personagens, empresta sua voz, seu corpo para o personagem, então todos são desafios novos. Muitos perguntavam se o Félix era o personagem favorito, eu dizia que era, mas naquele momento. O personagem mais importante é aquele que estou fazendo no momento.

PORTAL: Deu muito trabalho construir o personagem Félix, um vilão homossexual e irreverente, que conquistou o público, sucesso absoluto no ano de 2013, que lhe rendeu o prêmio de melhor ator? Como foi esse processo de construção do personagem?

Mateus: Muito, muito, muito difícil. Um vilão, gay, irreverente e carregava um humor quase implícito, agia de formas nada recomendáveis, pouco convencionais, chamando a secretária de cadela, enfim… mas foi um trabalho que não fiz sozinho, foi feito a dez mãos, muitos responsáveis na construção desse personagem. Félix era um cara que estava no armário, mas tinha humor e ao mesmo tempo um drama profundo. Maurinho Mendonça trouxe toda a carga dramática, pesada, do personagem. O preparador de elenco, Sérgio Pena, cuidou do personagem antes do primeiro capítulo, trouxe toda a psicologia do personagem. O Wolf Maia que me libertou de amarras que eu tinha na época e disse – tira essa bicha do armário! Pode exagerar e aproveita para se divertir com o personagem – Dando sentido a todas essas questões por meio da minha interpretação.

PORTAL: O que Félix deixou em você ou lhe ensinou?

Mateus: As pessoas me perguntaram muito isso durante o Félix e eu dizia que era muito cedo para responder, porque eu precisava lançar um olhar sobre o passado para saber o que me influenciou. Hoje, eu posso avaliar e dizer que aprendi a dizer a verdade nua e crua, com um pouco menos de panos quentes, me ensinou a pedir perdão, a dizer não e a dar minha opinião, sem muitos rodeios, independentemente se vou magoar alguém ou não. Assim como ensinou ao personagem do Niko, de Tiago Fragoso, a ser menos inocente, a ser menos ingênuo, a perceber que  a vida é feita de fardos e venenos e é importante saber lidar com isso e não ter medo de dizer o que quer.

PORTAL: Você e Thiago Fragoso entraram para a história da Tv Globo, com o primeiro beijo gay masculino, televisionado em horário nobre, na novela Amor à Vida. Esse fato dá brilho a sua carreira ou é irrelevante?

Mateus: Sem dúvida é mais um fato importante, mas mais importante que o beijo em si, é o que levou o beijo a acontecer. O beijo não estava programado, nem sequer estava no script.  Walcyr Carrasco quando escreveu Amor à vida não sabia sequer que o Félix iria terminar com o Niko. O Félix era um vilão, deveria se dar mal, mas o público se apaixonou pelo Félix de tal maneira que até os mais preconceituosos queriam tanto que “aquela bicha venenosa” se desse bem, que o Walcyr foi obrigado a redimi-la, deixando-o pobre, o fez aprender a cuidar das próprias coisas. A ser generoso e a cuidar de um recém nascido, já que no primeiro capítulo, ele havia jogado um, na caçamba. Passar por várias provações até encontrar um grande amor. O casal Félix e Niko foi perfeito. Então, o público aprovou e se apaixonou por eles e cobrou o beijo do casal apaixonado.  A coroação do amor em toda novela é o beijo. O beijo que rolou foi o que chamamos “Beijo Tarcísio Meira”, um beijo em homenagem aos primeiros beijos na televisão, de lábios colados por um tempo, com emoção. Foi muito bonito, especialmente a forma que Walcyr escreveu na sequência, um beijo entre um casal que já foi pra cama, já estavam juntos, já tinham uma rotina e de repente vem um beijo de “tchau meu amor, bom trabalho”. Mais importante que o beijo em si, foi o que os personagens, o casal, Félix e Niko, trouxeram para o público, levando o público a revisitar seus próprios preconceitos e quebrar paradigmas.

PORTAL: Como foi reencarnar Félix, na retrospectiva da Rede Globo, onde você comandou um “Talk Show” e recebeu o ator Paulo Betti, que hoje faz sucesso como Téo Pereira, na novela Império?

Mateus: Não sei qual foi a maior emoção. O Félix está guardado numa gaveta muito especial. Pedem para eu fazer o Félix e eu não faço, digo que a Globo não deixa. Mas na verdade o que eu desejo é preservar a identidade do Félix, que não existe só a partir de mim, existe a partir do Walcyr Camargo. Não sou o Félix, sou um ator que interpretou um personagem com toda uma direção por trás. Mas fazer de novo, claro, é divertido. Mas emocionante mesmo foi dividir a cena com Paulo Betti que é uma referência para mim como ator, e falar justamente da função social que um personagem pode alcançar na sociedade brasileira.

PORTAL: Na peça “Selfie”, dirigida por Marcos Caruso, você divide o palco com o ator Miguel Thiré e traz assuntos muito atuais, vividos nas redes sociais e no mundo das relações cibernéticas. O que o público pode esperar dessa peça?

Mateus: Muita risada, muita gargalhada e quiçá uma bela reflexão sobre o que estamos vivendo. Que nem sabemos bem o que é e não estamos lá na peça para dizer que está todo mundo maluco colado no celular. A peça só levanta a questão e uma reflexão sobre essa relação tão íntima que estamos tendo com o celular.

PORTAL: Você vai do drama à comédia com facilidade. Costuma escolher seus papéis ou não faz questão de selecioná-los?

Mateus: Olha, graças à Deus, hoje, eu posso escolher os projetos que me interessam, ou o que posso ou não fazer. Mas antes não era assim, eu não podia escolher.

PORTAL: Você tem algum projeto para a televisão?

Mateus: Não, por enquanto não. Vou me dedicar a peça Selfie.

PORTAL: Se pudesse escolher. Qual papel gostaria de interpretar?

Mateus: Se for para citar um, gostaria muito de um dia poder fazer “O diário de um louco”, de Nicolai

PORTAL: Pai de uma menina, Flora, de 4 anos, será, agora, pai de um menino. Qual a expectativa para essa nova experiência? Como é Mateus Solano como pai?

Mateus: Agora, em maio, chega o Benjamim. Expectativa maravilhosa. Tento ser um pai maravilhoso, faço o melhor possível.

PORTAL: Como dois atores, você e sua esposa Paula Braum, conseguem conciliar a vida profissional com a rotina da casa, e dos filhos?

Mateus: Não é muito fácil. Muito mais porque nossa vida não tem muita rotina. Mas também não acho que seja muito diferente da vida de tanta gente.

PORTAL: Sua experiência nos palcos é vasta, mais de vinte peças encenadas. O que prefere, cinema, teatro ou televisão?

Mateus: Sou apaixonado por cada um deles. Cinema é mais recente, ainda um pouco estranho para mim. São veículos muito diferentes. Mas sou apaixonado tanto pelo teatro, quanto pela televisão. No teatro se pode aprofundar, fazer pesquisa e levar o trabalho depois para a tv. Você conta a mesma história todos os dias, numa experiência direta com o público. Mas não tenho preferência.

PORTAL: Quais os planos para a peça “Selfie”?

Mateus: Inicialmente foi uma intenção da produção levar a peça para estrear na zona norte, uma região que está carente de investimento na cultura e tem um público solícito. Esse ano, vamos para a Zona sul e depois, pretendemos viajar com a peça.

PORTAL: Que outros projetos estão em andamento?

Mateus: Tenho um filme de Sérgio Rezende, “Em nome da Lei”, que deve ser lançado em abril ou maio de 2015, e mais para o fim do ano, mais um filme, em co-produção com o Canadá, mas ainda não foi assinado.

PORTAL: O que Mateus Solano mais gosta de fazer quando não está trabalhando?

Mateus: Gosto de ficar com a família e com os amigos.

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