Entrevista com Leona Cavalli (junho de 2015)

por Renata Couto 281 views0

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PORTAL: Você soube desde cedo, aos seis anos de idade, que queria ser atriz. Fez artes cênicas, ainda no Rio Grande do Sul. Veio buscar a realização profissional, em São Paulo. Quem lhe abriu portas? Como foi essa caminhada, até se consagrar atriz profissional e ter reconhecimento?

Leona: Foram várias pessoas e vários fatores. O ator José Barbosa, primeira pessoa com quem eu falava de teatro e desse anseio que eu trazia desde criança, trabalhava na companhia de Paulo Autran, foi ao sul dar um curso de teatro, em Porto Alegre, fui fazer e nos apaixonamos e ele se tornou meu primeiro diretor e meu primeiro namorado. Ele era muito amigo do Paulo, então, sempre saíamos para jantar quando eles iam a Porto Alegre. Quando cheguei a São Paulo, a única grande referência de ator que eu tinha era Paulo Autran, que chegou a ir a minha cidade natal, Rosário do Sul. Mas nessa época, não trabalhei com ele, só trabalhei com ele muito tempo depois. Emocionalmente, foi uma pessoa muito importante na minha carreira. Em São Paulo, trabalhei num grupo chamado Dragão Sete, onde fazíamos teatro para escola e fazíamos quatro apresentações por dia. Foi maravilhoso, pegávamos aquele público que muitas vezes nunca havia ido ao teatro, e quando gostavam, adoravam e quando não gostavam, vaiavam. Era meio circo. Fiquei uns dois anos nessa companhia e foi uma escola, um período muito bom para mim. Fiz cursos com a Miriam Muniz e com a Lélia Bramo. Depois fui para o teatro oficina, onde comecei a integrar a companhia do José Celso Martinez Corrêa e fiz o que considero minha primeira peça profissional, Hamlet, quando fiz Ofélia. Depois, ainda trabalhei com Bibi Ferreira, Paulo Autran, Cibele Forjaz… grandes mestres. Considero que todos eles abriram portas e foram fundamentais.

PORTAL: Leona, em sua carreira, você participou de muitas novelas, filmes e minisséries. Qual foi a personagem mais marcante? Por quê?

Leona: É tão difícil responder, parece que a gente não quer responder, mas é verdade, não há uma personagem mais marcante, há algumas. É que algumas personagens significam pontos de transmutações de algumas fases. Eu poderia citar a Ofélia, no teatro, com “Hamlet”, a Geni, de “Toda Nudez Será Castigada”, de Nelson Rodrigues, com quem ganhei o prêmio Shell de melhor atriz, “Blanche du Bois”, de “Um Bonde Chamado Desejo”, com quem também fui premiada. O “Disco Solar”, minha primeira produção. Agora, a própria Frida é uma personagem muito marcante e tem um significado muito forte na minha carreira. No cinema, também, com meu primeiro filme, “Um Céu de Estrelas”, de Tata Amaral, ganhei um prêmio internacional e quatro prêmios no Brasil. “Amarelo Manga”, “Contra Todos”, “Cafundó”, doze filmes, alguns personagens muito significativos… Aparecida, Anna K. Em novelas, apesar de ser uma personagem pequena, minha personagem em Belíssima foi marcante. Eu já tinha feito participações pequenas em episódios dos Normais e da Grande Família, quando Silvio de Abreu me convidou para fazer a Valdete. Eu fazia os dez primeiros capítulos, mas a novela girava em torno do assassinato da personagem e abriu as portas da televisão para mim. Silvio de Abreu sabia que não era um papel grande, mas que me abriria portas. Depois, fiz Duas Caras, minha primeira novela inteira, Amazônia, Negócio da China, em Gabriela, a Zarolha, foi muito marcante também. Mas, quando digo que não teve uma mais importante, é real.

PORTAL: Em “Anna K.”, filme do pintor José Roberto Aguilar, que estreia como diretor, em cartaz nos cinemas, inspirado no famoso romance do russo Liev Tolstoi, Anna Karenina. Você vive a protagonista Joana, que acredita ser Anna Karenina, e vive o drama dessa dupla personalidade. Como foi a construção dessas complexas personagens?

Leona: É a história de uma cura. A cura de uma personagem que acredita mesmo ser Anna Karenina. Foi um mergulho na obra de Tolstoi e ao mesmo tempo um grande encontro com o Aguilar, uma pessoa maravilhosa, um grande artista, e ele dirige de um jeito totalmente diferente, as referências dele são a obra plástica, a pintura… O filme tem arte, poesia. Foi um filme delicado de fazer.

PORTAL: Como surgiu o convite para interpretar a famosa pintora mexicana Frida Kahlo, no teatro?

Leona: Eu estava fazendo a novela Amor à Vida, na tv, e a comédia “E aí, comeu?”, no teatro, onde eu fazia sete tipos, uma peça de Marcelo Rubem Paiva. Quando recebi o convite do diretor Eduardo Figueiredo e da Maria Adelaide Amaral, autora com quem eu já havia feito a minissérie Dalva e Herivelto, para fazer a Frida. Adoro a Frida, sempre adorei. Lembro, há um tempo atrás, quando conheci mais a vida dela, porque a obra, eu já conhecia. Foi vendo a um filme do Paul Leduc. Não esse que concorreu ao Oscar agora, um filme mais antigo, e fiquei muito emocionada, chorei do começo ao fim. Fiquei impressionadíssima com a Frida Kahlo. Mas nunca imaginei que iria interpretá-la. Essa peça é inédita, o texto de Maria Adelaide é inédito para essa montagem. Existiram algumas montagens, de outros textos que faziam referência a obra de Frida, e não, ela falando, em prosa. Neste, o foco está na relação de amor entre Frida e Diego Rivera, marido e grande amor de sua vida e que tem tudo a ver com a carreira e obra dela. Foi maravilhoso o processo de criação. A relação com o Chachá, que interpreta Diego, ator que sempre admirei. Fizemos Gabriela juntos, mas não contracenávamos, sempre quis trabalhar com ele. A caracterização de Anderson Bueno é muito cuidadosa. As projeções, o figurino, tudo é muito cuidadoso na peça. Os músicos em cena. A peça tem a preocupação de trazer a riqueza desse universo de Frida.

PORTAL: Quando você pesquisou e buscou saber mais de Frida Kahlo, viajou ao México e adentrou no universo da artista, descobriu algo além do que todos já sabem sobre sua biografia? O que mais chamou sua atenção ou a inspirou?

Leona: Muitas coisas me chamaram atenção e me inspiraram, além do acidente, que todos conhecem. Todo sofrimento por ter quebrado a coluna em onze partes. Mas a coisa, que mais me chamou atenção, foi sua imensa capacidade de autossuperação, de automotivação. Ela foi uma mulher que teve problemas físicos praticamente a vida inteira e nunca, jamais, se deixou abater, em nenhum momento. Ela tinha um amor imenso pela vida. A última frase que ela pintou, quatro dias antes de morrer, foi: “Viva la Vida!”. E ela já estava muito mal, já sabia que ia morrer. Eu não sabia da profundidade de seu processo, sabia um pouco, mas não o quanto foi terrível. Ela fez mais de trinta operações…e não perdeu a paixão pela vida, pela pintura… e por suas tantas manifestações artísticas. Ela foi várias coisas, além de pintora, foi colecionadora de arte, fotógrafa, pacifista, uma mulher que lutava pelos direitos humanos, uma pensadora dos direitos das mulheres, apaixonada por crianças, foi professora, criava seus próprios adereços, sua própria roupa, sua casa, seus jardins, de que ela mesma cuidava.

PORTAL: O que o público pode esperar do texto de Maria Adelaide Amaral e dessa montagem “Frida Y Diego”?

Leona: Uma grande história de amor, um mergulho no universo desses dois grandes artistas mexicanos, na paixão deles pela vida e pela arte. A riqueza da arte mexicana. Aqui no Brasil, como um espectador que entra na intimidade dos dois, nos desejos, nas paixões, no ciúmes, nas brigas, nas discussões, nas dores. De uma forma que acredito nunca ter sido mostrada, com tanta intimidade. Entrando na intimidade desse casal, desses dois grandes gênios.

PORTAL: Há algo de Frida em Leona? O que ela lhe ensinou?

Leona: Acho que sim. Primeiro, porque sou atriz e como atriz, a gente sempre se coloca, um pouco assim, na possibilidade de trazer algo para si. A grandeza da arte da interpretação é exatamente essa. Como fazer uma Frida Kahlo, ou outras personagens tão distantes de mim? Sabendo que a natureza humana tem sempre muitas semelhanças, como mulher, como uma apaixonada pela vida e pela arte, uma pessoa que acredita no ser humano, na possibilidade de uma vida mais justa, melhor e mais pacífica, acho que tenho um pouco desse sentido da beleza, da paixão pela vida e pela humanidade que Frida tinha, naturalmente, com todas as imensas diferenças. Ela me ensinou ser autotransformadora, mais forte que as limitações. Nos ensaios, fazendo a Frida, eu brincava que não podia ter nem dor de cabeça, não dava para reclamar de estar cansada, por exemplo.

PORTAL: É comum você trazer para sua vida algo vivenciado em suas interpretações e personagens?

Leona: Sim, no sentido de que sempre aprendo algo com todas as personagens. Acho isso, das coisas mais maravilhosas. Se eu pensar na minha vida, vou pensar na vida por todas as lembranças que partem do dia em que entrei em cena, aos seis anos de idade, pela primeira vez. E curiosamente, tudo na minha vida, depois do primeiro personagem, eu vou vivenciando, junto com as personagens e esses grandes autores. Mas, eu consigo deixar o personagem em cena, não levo o personagem para casa. Sei que a minha vida é dedicada à interpretação, mas a vida é muito maior que isso.

PORTAL:  Todos sabemos e já ouvimos declarações suas, sobre a necessidade de se manter um bom equilíbrio físico, mental e espiritual. Como você busca esse equilíbrio na sua rotina?

Leona: Me alimento com cuidado, sou vegetariana há mais de dez anos. Não como nenhum tipo de carne. Em relação ao físico, procuro sempre fazer alguma coisa, não dá para ficar parada. Não gosto muito de academia, ambiente fechado, acho cansativo o ambiente. Eventualmente até faço. Mas gosto de variar, faço Tai Chi Chuan, vou para meu sítio, faço um pouco de yoga, mantendo a saúde, de preferência, em contato com a natureza. Mas, acima de tudo, mantendo a felicidade, a paixão pela vida, a esperança nas pessoas, no ser humano, numa vida melhor. Acho isso a principal coisa.

PORTAL: Leona, você se acha disciplinada, no que diz respeito ao seu ofício?  Você se cobra muito?

Leona: Me acho disciplinada, mas infelizmente me cobro demais, sou autocrítica demais. Acho que poderia fazer melhor, enfim. Mas até que estou melhor nesse sentido. Antes, me cobrava mais, agora, estou achando que tenho que fazer o que dá, e está ótimo. Por outro lado, isso é bom, porque nunca me dou por satisfeita. Sempre estou, realmente, achando que posso fazer alguma coisa diferente ou melhor. Nunca digo agora está bom. Estou em construção sempre. Considero a minha carreira no começo de aprendizado.

PORTAL: Você já declarou sua paixão pela arte, pelo seu trabalho. Em que momento, a vida se mistura com a arte?

Leona: Nas inspirações. Sou atriz, por amor. Ficar a vida inteira interpretando outras pessoas, tem que adorar muito isso.

PORTAL: Você publicou um livro, em 2010. Caminho das Pedras. Qual o Caminho das Pedras?

Leona: Caminho das pedras é, exatamente, você transformar obstáculos em aprendizados. Passar pelas pedras como se fossem impulsos para novos saltos, para novas experiências e não, como impedimentos no caminho.

PORTAL: Quando você atua como uma palhaçinha e visita hospitais, levando arte e alegria para crianças doentes, você faz uma linda ação solidária. Há quanto tempo você desenvolve esse trabalho social?

Leona: Desde 2005, quando fiz a novela Belíssima, comecei a desenvolver esse trabalho nos hospitais. É uma coisa de que gosto muito. Estou, no segundo semestre deste ano, publicando meu primeiro livro infantil, com a história da palhaçinha Bela Belinha. E já estou escrevendo outro, sobre a montagem da personagem. Estou melhor e menos autocrítica a partir da construção dessa palhaçinha, porque o palhaço não tem nada definido. Não tem texto definido. Ele tem que ir vendo graça na vida e seguir vivendo. O olhar da comédia do palhaço me ajudou a ver a vida com mais leveza, com mais simplicidade, e eu adoro.

PORTAL: Como você administra seu tempo entre tantos compromissos profissionais e o trabalho voluntário?

Leona: Procuro ter disciplina e alegria. Cumprir com meus compromissos, sem me preocupar, sem pensar muito nas dificuldades e na correria. Se for parar para pensar, vou cansar mais, porque é difícil. Então, vou indo e procuro fazer o melhor possível sempre. Por outro lado, eu gosto de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, me dá prazer.

PORTAL: É notório seu envolvimento com a arte e com o que ela pode influenciar a vida das pessoas. Neste sentido, quais os seus projetos e planos como atriz?

Leona: Vou procurar sempre fazer bons textos. Acho até, que tenho tido muita sorte. Desde o começo, fiz grandes autores, William Shakespeare, Tennessee Williams, Nelson Rodrigues, fiz a vida de Cacilda Becker, uma das maiores atrizes brasileiras. Considero uma graça, uma sorte, ter tido grandes encontros na vida e quero procurar continuar fazendo bons personagens e dando uma palavra, um depoimento às pessoas que estão no mesmo caminho. Às vezes, faço palestras e oficinas, desde o lançamento do Caminho das Pedras, para o público. Também, tenho a Ong Paz Sem Fronteiras, pela qual faço as “palhaciatas”. Trabalho com os índios e procuro fazer outros trabalhos que unem a arte, ao movimento pacifista e ecologista.

PORTAL: Sua última personagem em novela, foi a médica apaixonada de “Amor à vida”, na Rede Globo. Quando a veremos atuando, novamente, em novelas?

Leona: Ainda não posso divulgar, mas posso dizer que no ano que vem, estarei de volta à tv.

PORTAL: O que você mais gosta de fazer, televisão, teatro ou cinema? Por quê?

Leona: Sinceramente, é que nem filho. A gente gosta de cada um de um jeito. Não tenho filhos, mas ao mesmo tempo, tenho um instinto maternal muito forte e sei que é assim. Sinto exatamente assim, com cada coisa, cada um tem seu fascínio, seu prazer, seus desafios e dificuldades. Teatro é um encontro ao vivo com o público, sentir a mesma respiração, o calor humano. Por outro lado, a televisão tem o cotidiano, o fato de você ficar mais tempo com a personagem, poder refletir esse personagem, não só nas grandes cenas, você tem um tempo para ser mais normal, sendo pessoas mais cotidianas, isso é muito interessante. Você entra na casa das pessoas, desde uma tribo na floresta Amazônica até o interior do Rio Grande do Sul, até Goiás, até a África e vê passando a novela. É muito bom esse encontro popular com as pessoas. O cinema tem outro ritmo, outro cuidado com a imagem. Gosto também de rádio, de internet, de jornal. Eu gosto do público. É disso que eu gosto.

PORTAL: Foram muitos trabalhos ao longo de sua carreira. Que papel você ainda não fez e desejaria interpretar?

Leona: Desejo fazer, no teatro, uma personagem chamada Paracelsus, o grande inventor da alquimia. Descobriu-se, agora pouco, que ele, na verdade, era uma mulher. E meu próximo projeto é fazer uma peça: ” Paracelsus era mulher”, de Ana Vitória Vieira Monteiro.

PORTAL: O país vive um momento político e econômico conturbado. Há uma insatisfação real entre as pessoas, de todos os segmentos e classes sociais. A crise atinge a todos. Você já fez algumas “Palhaciatas”, movimento de passeatas bastante criativo. O que são as “palhaciatas”?

Leona: Palhaciatas são passeatas, onde as pessoas se vestem de palhaço, ou não. Ou simplesmente acompanham. A contribuição da manifestação é por meio da alegria, da disseminação dessa possibilidade do ser humano de manifestar-se em paz, trazendo alegria. As manifestações, historicamente, claro, são ferramentas importantíssimas, a nossa voz, mas com certeza, trazem melhor resultado, são mais eficazes e mais sérias, quando são feitas em paz. As palhaciatas não levantam bandeira política, levantam a bandeira dos direitos humanos e do direito à manifestação pacífica.

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