Entrevista com Deborah Colker (maio de 2014)

por Renata Couto 379 views0

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Referência no mundo da dança. Reconhecida e respeitada, internacionalmente, por seus belíssimos espetáculos. Admirada, como profissional, por sua genialidade, força, criatividade, autenticidade e dinamismo, mas que na essência, é mãe, com todos os adjetivos que a palavra imprime. “Nunca consegui separar a minha pessoa da mãe que sou, da avó que sou, da filha, da neta, dos amigos que tenho. A coisa mais importante na vida é o olhar pro outro” – Deborah Colker.
PORTAL: Você vivenciou, por algum tempo, o teatro e trabalhou com os principais atores e diretores do país.  Como e quando a dança entrou em sua vida e em que momento ela virou sua principal realização profissional?

Deborah: Eu já tinha dançado quando pequena, mas teve um momento na minha vida em que eu estava me sentindo num buraco negro existencial e foi a dança que conseguiu me reorganizar. Conseguiu unir a minha energia e eu pude enxergar potencial para a criação artística. Um tempo depois, por volta de 1984, eu estava dando aula e comecei a fazer meus primeiros trabalhos de direção de movimento no teatro. A partir daí não parei mais.

PORTAL: Sabemos que depois de fundar a Companhia Deborah Colker, em 1993, montou mais de nove espetáculos. Todos aclamados pelo público e pela crítica. Recebeu diversos prêmios, com reconhecimento nacional e internacional. Qual o momento mais marcante dessa brilhante carreira como bailarina, diretora artística e coreógrafa?

Deborah: Foram muitos momentos marcantes. Ao longo desses 21 anos da Companhia, fizemos ao todo onze espetáculos. Todos têm sua importância, mas não posso deixar de citar o Mix que ganhou o prêmio Laurence Olivier de 2001, um dos mais importantes de Artes Cênicas, após uma temporada de sucesso em Londres. Esse espetáculo levou um público diversificado para ver dança contemporânea. Um público formado não apenas por artistas, mas também por pessoas que queriam conhecer o nosso trabalho. Nós, da Cia., temos esse entendimento de que devemos fazer espetáculos para todo mundo. Adoro gente, adoro pessoas, seus universos, suas estranhezas e particularidades. Quanto mais misturado, melhor.

PORTAL: A primeira mulher a criar e dirigir um espetáculo no Cirque Du Soleil, OVO (2009). Como vivenciou esse desafio e como foi essa experiência?

Deborah: Dirigir uma instituição como o Cirque du Soleil foi para mim um enorme desafio. Uma produção monumental, 53 pessoas em cena, banda ao vivo, uma tenda que viaja o mundo inteiro se apresentando para crianças, para jovens, adultos, idosos, de diferentes culturas. Em seis anos, já foram feitas mais de 2 mil apresentações, com mais de 3 milhões de espectadores. Isso enriqueceu muita minha experiência, minha capacidade de lidar artisticamente e tecnicamente com a criação de um espetáculo.

PORTAL: Nos espetáculos de sua Companhia de dança, qual o processo criativo? Como o embrião ganha corpo e nasce?

Deborah: É muito frequente, quando termino um espetáculo, surgir a sensação de um vazio, uma angústia, e me pergunto “E agora? É o fim?”. Aí, você descobre que precisa de alguma coisa, mas não sabe, exatamente, o quê. A Cia. é de repertório, então estamos sempre ligados na busca de novas experiências, tentando enriquecer nossas descobertas. Cada espetáculo leva ao outro, deixa perguntas que um próximo vai responder. Eu vou carregando essas descobertas comigo, elas são minhas, como se fizessem parte de mim. Cada vez mais, sinto necessidade de descobrir outras coisas e enriquecer aquilo que já foi construído. O patrocínio da Petrobrás e da Prefeitura do Rio de Janeiro são muito importantes para a manutenção disso. Assim, como dançar muito e conquistar um público cada vez maior.

PORTAL: Quem cria seus cenários e figurinos?

Deborah: No espetáculo Belle, temos o Gringo Cardia na direção de arte e cenografia e o Samuel Cirnansck, no figurino. Eu não chamo meus parceiros só na hora de montar o espetáculo. Para Belle foram dois anos e meio de trabalho prévio. Todo mundo leu o livro, se envolveu desde o início. Me relaciono com cada um individualmente também. Sou como um chef de cozinha montando um prato e juntando cada ingrediente até o resultado final.

PORTAL: Hoje, quantos bailarinos fazem parte da Companhia Deborah Colker? Como é feita essa seleção?  Quais as principais qualidades que busca nesses profissionais?

Deborah: Atualmente, temos dezessete bailarinos na Cia. O bailarino da Companhia Deborah Colker tem que ter técnica, personalidade, e ser um artista disponível para experimentar e buscar a precisão máxima na clareza dos movimentos. Tem que gostar de desafiar e investigar a relação do movimento no espaço.

PORTAL: No mais recente espetáculo, Belle, inspirado no romance de 1928, Belle de Jour, de Joseph Kessel, o que pode surpreender?

Deborah: No processo de adaptação do livro, me concentrei em extrair as forças e as potências presentes na literatura. Eu sabia que não queria fazer um espetáculo narrativo. Li o livro umas dez vezes, com os bailarinos, com outras pessoas e acabávamos chorando. É uma tragédia, é tão humano, a história de uma mulher tão frágil e tão corajosa. O livro é esse embate entre a razão e o instinto. Esse embate ocorre dentro de Séverine, uma mulher cheia de questões femininas e humanas. Mas essa história acontece também aqui, com a gente, somos nós: casados que querem estar solteiros, solteiros que querem estar casados, em conflito com essa dualidade dentro da gente. Completamente humano. Acho que o sexo ainda é um tabu, acho que o casamento é também um tabu. Belle foi adaptado de um livro escrito no final da década de 20 e trata de assuntos que estão sendo discutidos ainda hoje! Apesar do mundo ter passado pela revolução feminista, pela pílula, pelo aborto, mesmo assim temos um olhar muito hipócrita sobre esses assuntos. Como a gente lida com as perversões que nos pertencem?

PORTAL: Para se tornar uma das bailarinas e coreógrafas mais reconhecidas e admiradas do país, qual foi a sua escola?

Deborah: A minha grande escola foi no Grupo Coringa com a Graciela Figueroa. Foi onde entendi o que é dança contemporânea. E fui percebendo que quanto mais técnica e disciplina eu tivesse, mais criatividade e liberdade eu teria para criar.

Além da Graciela, aprendi bastante, ao conectar a dança com outras áreas. Aprendi muito no teatro com o Domingos de Oliveira. O Domingos sabe tudo. Depois, com a Dina Sfat, o Antonio Abujamra, Ulisses Cruz, Zé Celso, absorvi muitas coisas no contato com esses grandes diretores.

PORTAL: Deborah Colker, na dança, mostra força, beleza, perfeccionismo e autenticidade. Quais suas principais características fora dos palcos?

Deborah: Acho que são as mesmas. Nunca consegui separar a minha pessoa da mãe que sou, da avó que sou, da filha, da neta, dos amigos que tenho. A coisa mais importante na vida é o olhar pro outro. Quando você olha pro outro, você sai de você. Somos o que está dentro da gente, e queremos conectar o que está dentro com o que está fora. Meu princípio básico é a troca com o ser humano. Minha vida mudou desde que nasceu o meu neto Theo. Ele nasceu especial e é realmente especial porque mudou a minha vida e a vida de muita gente. Ele nasceu com Epidermólise Bolhosa, uma doença genética que atinge a pele, a aparência. Ele é um herói, um guerreiro, e a pergunta que faço todos os dias é: o que realmente importa? A resposta que tenho é: o que está dentro da gente, de mais profundo.

PORTAL: Qual o próximo projeto de sua Companhia?

Deborah: Aí, é um super segredo. Mas posso dizer que vamos adaptar mais uma obra literária, dessa vez, de um autor brasileiro. Estou debruçada em um material muito visceral sobre a natureza humana.

PORTAL: Quando e onde os cariocas poderão prestigiar “Belle”?

Deborah: Belle será apresentado, no Rio de Janeiro, na nossa já tradicional temporada popular, no Teatro João Caetano, que é a sala de espetáculos mais antiga da cidade. Faremos sete semanas do dia 12 de junho ao dia 02 de agosto.

PORTAL: Que bailarinos ou coreógrafos já a inspiraram? Alguma referência para você?

Deborah: As minhas referências fundamentais são Martha Graham, Merce Cunningham, Twyla Tharp, Pina Bausch e Michael Jackson.

PORTAL: Você admira algum trabalho, no seu segmento? Qual?

Deborah: Admiro um monte de gente. No Brasil, Ivaldo Bertazzo, Marcia Milhazes, João Saldanha, Carlinhos de Jesus, Bruno Beltrão, Grupo Corpo. Na dança internacional, Pina Bausch, Merce Cunningham, Martha Graham, aí estão um monte.

PORTAL: Sabemos que todos os prêmios são louváveis. Mas qual, para você, teve maior importância e por quê?

Deborah: O prêmio Laurence Olivier, que ganhei em 2001, em Londres, para mim é muito especial. Londres é uma das cidades mais importantes do mundo e tenho o maior respeito por tudo o que acontece ali. Levo sempre os espetáculos para lá. Em uma cidade que tem 450 espetáculos por noite, ter conseguido uma indicação por lá, foi uma notícia maravilhosa. Quando ganhei o prêmio, não acreditei.

PORTAL: Você inspira muitos bailarinos e bailarinas em todo mundo. Como se sente sendo referência para tanta gente?

Deborah: Eu acho que a Cia. Deborah Colker foi muito importante no Brasil, por impulsionar e incentivar a continuação de outras companhias, de dizer “Podemos existir.”  A dança pode ser um bom investimento. Lembro-me de falar com os bailarinos: “É difícil, pois a gente não toca no rádio, não aparece na televisão.” Mas, hoje, o rádio, a televisão, os jornais, reconhecem a importância da dança.

Eu acredito que viver de qualquer coisa, dentro ou fora do Brasil, é difícil. Hoje em dia, o mundo está super populoso, o que resulta em muita concorrência. Eu sou adepta de uma frase que me rege, há muito tempo: “Quem reclama, já perdeu.” Acho que você precisa ter foco, linha reta, meta, um Sim e um Não.

PORTAL: Como são vistos os bailarinos brasileiros no exterior?

Deborah: Os bailarinos brasileiros são sempre vistos com o mesmo olhar que o mundo tem pelo Brasil, de que somos um povo mais solto, mais relaxado, que assimila a responsabilidade e a festa. Que se mistura. Isso está no corpo do brasileiro, que gosta de sambar, requebrar, gosta de esmiuçar e partir o corpo em vários pedacinhos.

PORTAL: É comum você remontar os seus espetáculos anteriores? É possível termos a oportunidade de revermos MIX, por exemplo?

Deborah: Sim, neste ano apresentaremos Mix em duas apresentações, em São Paulo, no teatro Sérgio Cardoso, nos dias 19 e 20 de maio.  Em seguida vamos levar Mix, Tatyana e Belle para apresentações fora do país, em uma turnê internacional por três continentes.

PORTAL: O que Deborah Colker mais preza e valoriza?

Deborah: São três pilares: Respeito, disciplina e conhecimento.

PORTAL: Qual seu maior sonho?

Deborah: O meu maior sonho é curar o meu neto. Encontrar a cura para a sua doença, pois sei que encontrando o caminho para a sua cura, estaremos encontrando o caminho para muitas doenças raras.

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