Entrevista com Oswaldo Montenegro (setembro de 2014)

por Renata Couto 376 views0

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PORTAL: Nesses anos de estrada, qual o momento mais marcante dessa sua trajetória artística?

Oswaldo: Acho que o lançamento da música “Bandolins”, no Festival da extinta Rede Tupi de Televisão, em dezembro de 1979. Já havia gravado alguns discos e havia sido colocado pela crítica e pela gravadora como um compositor mais elitizado, restrito às classes mais intelectuais. “Bandolins” me deu acesso ao grande público. Além disso, é uma música que define o que sou em termos de estilo: um trovador, um cara que anda por aí cantando ao violão as coisas que vi, que me contaram ou que imaginei, formado pela música barroca das igrejas de São João Del Rei, onde passei minha infância, e pelas canções que meus pais e avós cantavam e eu ouvia, extasiado, nas varandas do Grajaú.

PORTAL:  Qual o show que mais marcou sua vida?

Oswaldo: Se tivesse que escolher, escolheria “A Dança dos Signos”, principalmente pelo tanto que a gente se divertia fazendo. Ensaiamos três meses em Brasília, às vezes na beira do lago, às vezes no cerrado, pra que tudo parecesse improvisado. Ia para o espetáculo como quem vai pra uma farra. Todos do elenco se tornaram grandes amigos e, até hoje, quando alguém monta esse espetáculo, me dá saudade e vontade de pular no  palco.

PORTAL: A música sempre fez parte da sua vida, mas foi “Bandolins”, de seu quarto disco, que apresentou seu talento ao Brasil. Bandolins ainda pode o emocionar?

Oswaldo: “Bandolins” foi gravada no quarto disco, e ainda me emociona. Não imaginava o sucesso que ela ia fazer e muito menos que ela ia durar.

PORTAL: Oswaldo: escritor, compositor, cantor, cineasta, roteirista, diretor, ator, menestrel, autor de trilhas para novelas e balés, musicais, peças teatrais e até apresentador de TV. Com qual dessas suas inúmeras vertentes você mais se identifica?

Oswaldo: Com certeza, com a composição. Acima de tudo, sou um autor de canções populares. Tenho paixão pelas outras artes, mas se tivesse que escolher uma atividade, seria essa, com certeza.

PORTAL: Seu primeiro filme “Léo e Bia” (2010), recebeu dois prêmios na sua primeira exibição e foi consagrado pelos críticos. Sucesso absoluto no teatro e como musical foi assistido por mais de 500 mil pessoas na década de 80. Conte-nos a inspiração ao compor as personagens e a história de “Léo e Bia”.

Oswaldo: É uma história semiautobiográfica. Misturei fatos que aconteceram na minha vida com alguns que inventei. Alguns personagens foram inspirados em amigos e outros criei cruzando a personalidade de duas ou três pessoas que conhecia, pra formar uma só. Só o personagem Marina, interpretado no filme por Paloma Duarte, é inteiramente inspirado em Madalena Salles, flautista que toca comigo há quarenta anos e a quem dedicamos o “Léo e Bia”.

PORTAL: É verdade que a história de “Léo e Bia” saiu aqui do Grajaú?

Oswaldo: Sim e não. Alguns amigos do Grajaú estão no filme, mas de forma completamente alterada. Misturei histórias do Rio com histórias de Brasília. Até mesmo pra mim, é difícil definir quando e onde fui autobiográfico nesse filme.

PORTAL: O músico, compositor e produtor Roberto Menescal, declarou que o seu segundo filme “Solidões” (2013) é de “uma plasticidade incrível, muito criativo e a trilha musical bárbara”.  Solidões: filme ou documentário? Quais eram suas expectativas com o filme?

Oswaldo: “Solidões” é um filme de ficção. São várias histórias que escrevi sobre esse tema. Algumas delas filmei num tom documentarista, e as pessoas acreditam ser documentário, graças ao talento dos atores com quem tive a honra de trabalhar, nesse longa-metragem.

PORTAL: 3/4, seu mais recente trabalho, imprime a sua verdadeira identidade?

Oswaldo: Sim, completamente. É um passeio por tudo que influenciou a minha obra, e por vários lados dela. Na primeira parte, estão as músicas mais alegres, que compus em estado de euforia. Todas elas ligadas por citações bem pequenas, instrumentais, de mestres que me alegraram, como Jacob do Bandolim, Patápio Silva, Glenn Miller, teminhas de desenhos animados, como Pica Pau… É um bloco muito, muito, muito feliz. Na segunda parte do show, toco alguma música que o público queira, mostro “A Lógica da Criação”, tema do meu segundo filme, “Solidões”, enfim, é a parte livre, na qual tudo pode acontecer. Na terceira, focalizamos os aspectos mais teatrais da minha carreira e as influências do blues. Na quarta e última, mergulhamos nas influências da seresta da minha infância em São João Del Rei (MG) e tocamos canções que compus encharcado disso, como “Bandolins”, “Lua e Flor”, “Estrelas”, “A Lista”, “Estrada Nova”, “Velhos Amigos” e a mais recente, “Me Ensina a Escrever”.

PORTAL: Segundo o supervisor artístico do espetáculo, Sérgio Vasconcellos, 3/4 também “revisita o clima descontraído das festas, tão especiais quanto comuns, nos anos 70, nas casas de família, no bairro carioca do Grajaú”, você concorda? O que remete esse novo trabalho ao Grajaú?

Oswaldo: Tanto eu quanto o Sérgio somos do Grajaú. É inevitável que numa fotografia 3×4 a presença desse bairro seja muito forte.

PORTAL: Qual a reação que você pode observar do público ao show 3/4?

Oswaldo: O que mais me espantou é o quanto o público parece me identificar no bloco em que canto minhas composições mais renascentistas, mais seresteiras. A impressão que me dá (pode ser apenas impressão) é que no bloco das músicas alegres e no do blues, a plateia assiste a um espetáculo interessante e, nesse outro, a que me referi, eles embarcam de cabeça, como se ali fosse o show real.

PORTAL: Sabemos que 3/4 rendeu mais de dez horas de ensaios diários ao longo de dois meses. Nele, você divide o palco com o bouzouki e o bandolim de Sérgio Chiavazzoli, com a flauta de Madalena Salles e o violão blues de Alexandre Meu Rei. Qual a maior experiência tirada desse encontro musical?

Oswaldo: A certeza de que música é comunhão, entrosamento. Tocar com alguém é tão sério quanto namorar. Só depois que a intimidade acontece é que a música soa como deveria. Não basta tocar certo. Existe um momento (e esse momento só acontece quando você ama os músicos com quem você toca) que a palavra “JUNTO” acontece de forma sagrada e definitiva. Esse novo espetáculo é isso. Essa é a beleza dele.

PORTAL: No show você misturou trechos de Villa Lobos, Bach, Waldir Azevedo, Patápio Silva e Vivaldi a algumas músicas de sua carreira. A ideia é transportar o público para um concerto? O que foi inicialmente idealizado por você?

Oswaldo: Tudo foi criado por todos. Não existe um único momento do “3×4” em que a opinião de todos não acontecesse. Diogo Monteiro, que criou o cenário, Sérgio Vasconcellos, que fez a supervisão, e nós, músicos, estávamos dentro do processo o tempo todo. “3×4” é um trabalho coletivo.

PORTAL: O Show 3/4 esteve no Rio de Janeiro no final de julho, há intenção de nova apresentação por aqui?

Oswaldo: Sim, recebemos o convite para voltar, mas não sabemos se poderemos fazê-lo, pois estamos rodando o Brasil. Mas gosto muito da ideia de fazer esse show no Rio, de novo.

PORTAL: Quais são os projetos para esse show?

Oswaldo: Ele virou um DVD dirigido por Paulo Henrique Fontenelle, que deve sair em breve. Foi filmado em três locações diferentes. A primeira parte (“A Festa”), foi gravada no dia do meu aniversário, na casa de Madalena, comigo rodeado de amigos. A segunda parte (“A Serenata”), filmamos numa locação linda, uma casa com uma varanda que nos remetia ao ambiente de São João Del Rei, com poste de lampião e Madalena tocando flauta sob ele. A terceira e última parte (“O Blues”), filmamos num estúdio, com uma mesa de pôquer e uma de sinuca, num ambiente enfumaçado. Imaginamos uma historinha, e é quase um curta-metragem.

PORTAL: Você já afirmou algumas vezes que sua música veio de Brasília, do período em que viveu lá, dos 15 aos 20 anos. Quem foram suas influências e companhias musicais, lá?

Oswaldo: Minha música é o choque que Brasília provocou no garoto do Grajaú, que morou no interior de Minas Gerais e aportou, de repente, no Planalto Central. Ali, em Brasília, conheci pessoas que me influenciaram muito e de quem sou amigo até hoje. Ali, no cerrado, o rock e a música nordestina invadiram minha cabeça de seresteiro.

PORTAL: “Oswaldo do Grajaú”, é assim que até hoje os moradores do bairro da zona norte carioca se referem a você. O que existe de Grajaú em você?

Oswaldo: Muita coisa. Joguei muita bola na Rua Itabaiana, quando não passava carro nenhum. Joguei a sério, no Grajaú Tênis Clube. Minha primeira namorada era grajauense. Tenho o mapa do bairro decorado na cabeça e no coração.

PORTAL:  Alguma de suas canções o remetem ao Grajaú de sua pré-adolescência?

Oswaldo: Sim, várias. “A Lista” é uma delas.

PORTAL:  Qual a primeira lembrança que virá a sua cabeça se passar pela Rua Mearim, 53?

Oswaldo: Do quanto fui feliz ali, na casa do meu tio Divaldo. Naquela varanda, compus muitas canções.

PORTAL: O bairro em que você nasceu completou, em agosto, cem anos. E o Portal escolheu você para presentear seus moradores. Adoraríamos que deixasse uma mensagem aos grajauenses!

Oswaldo: Ao pessoal do Grajaú, meu amor e minha saudade. Uma vez, quando eu tinha 15 anos, vi uma reportagem que definia o Grajaú como o bairro do amor. Que assim seja.