Entrevista com Emilio Dantas (dezembro de 2014)

por Renata Couto 388 views0

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Emilio Dantas por Sergio Baia - MAR 2013 (img_9257)

PORTAL: Muito antes de você ser reconhecido na mídia como ator, você dedicava todo seu tempo à música. Foi vocalista de banda e até gravou um EP, “Aqui Onde Não Estou”. Você sonhava  em fazer sucesso como cantor?

Emilio: Não, não sonhava em fazer sucesso, na verdade acho que nunca sonhei em fazer sucesso. Eu sempre quis viver de arte e ter meu sustento por meio da arte, seguir vivendo do que eu gostava e a música foi o primeiro caminho que trilhei.

PORTAL:  Você era o tipo de adolescente que ia para a escola com mochila e violão?

Emilio: Já cheguei a ir, mas eu não era daqueles que vivia colado no violão, não.

PORTAL: O teatro surgiu inesperadamente na sua vida? Como foi isso?

Emilio: O teatro, a atuação, surgiu com um teste para cantor na peça “Aldeia dos Ventos”, de Oswaldo Montenegro, e fui aprovado para ator.

PORTAL: Oswaldo Montenegro, inspirou você de algum modo?

Emilio: Sim. Sempre escutei o Oswaldo, desde pequeno. Meu pai, pernambucano, ouvia muito. Ele vivia no Grajaú onde foi colega de escola de Oswaldo Montenegro.

PORTAL: No filme “Léo e Bia” (2010), que recebeu dois prêmios na sua primeira exibição e foi consagrado pelos críticos, você foi o protagonista, Léo. Como foi interpretá-lo?

Emilio: Bem bacana. Minha primeira experiência no cinema, dirigido pelo Oswaldo, com quem eu já havia trabalhado anteriormente e já existia uma sintonia. Foi um trabalho mais tranquilo, um experimento cinematográfico.

PORTAL: Cinema, teatro ou televisão? Por que?

Emilio: Prefiro cinema, passei pelo teatro, por dublagem, por cinema, por série, por novelas, obviamente não fiz muita coisa, mas algumas. Em novela, você tem que cumprir uma marca, uma atuação regido pela audiência que o canal pede. O teatro é uma experiência diária, um exercício constante, ao mesmo tempo, se você quiser ter o acervo, não existe um registro. No cinema, gosto muito do jogo da atuação, na maioria das vezes a câmera vai te procurar, você tem um espaço mais livre, é quase a vivência de um teatro, só que registrada. Você tem a possibilidade de variar mais a linguagem e trabalhar a curto prazo.  Vivenciar várias experiência em um tempo menor e você vê o registro, revisita a história. Em novela, são mais de nove meses gravando. Cinema você roda num período menor, nuns três meses você roda um filme e vê o resultado mais rápido. Acho o cinema muito completo.

PORTAL: Como surgiu o convite para protagonizar o musical Cazuza?

Emilio: Na verdade foi um teste. Eu já tinha feito o Rock in Rio Musical, com o João Fonseca, mesmo diretor do Cazuza. Fui avisado por ele do teste e me disse “-confirma se quiser”. Fui lá, muito mais por ver o amigo satisfeito. Eu não acreditava que pudesse ser escolhido, não tenho nada a ver fisicamente com o Cazuza e nem tinha trabalhado a voz. Não via a menor possibilidade, mas acabou rolando…

PORTAL: Cazuza foi o melhor papel de sua carreira até agora?

Emilio: Não diria que foi o melhor papel, acho que todo papel (Obviamente existem papéis que você cumpre e não dá tanta satisfação), mas eu curti fazer todos os personagens que passaram pela minha vida. Acho que todos os papéis são os melhores naquele momento. O Gil, de Meus olhos meus, o Léo… Tive alguns papéis que guardo comigo. Para mim, o melhor papel é aquele que diz alguma coisa, que te faz crescer.

PORTAL: Como foi encarnar Cazuza, com toda irreverência e rebeldia de um ícone dos anos 80?

Emilio: Foi uma responsabilidade violenta. Tive muito receio. Como vai ser isso? Pode ser o maior tiro no pé, na história. Às vezes, você pega um papel importante e pensa que se deu bem e depois você pensa – e se der errado? Como vai ser? Na verdade, só me senti seguro e confiante mesmo, quando a Lucinha viu e disse: “Tá ótimo, vejo meu filho ali”. Só então, relaxei.

PORTAL: No musical, quem assiste garante ser impossível não se emocionar, parece que Cazuza está mesmo no palco. A própria mãe do “Exagerado”, Lucinha Araújo, declarou ter assistido à peça várias vezes  porque revivia o filho por meio de sua brilhante interpretação.  Qual a responsabilidade de assumir um papel como este?

Emilio: A responsabilidade assumi desde a hora em que o papel me foi entregue. Mas após a Lucinha comentar, foi um alívio, pois soube que estava no caminho certo e uma satisfação, pois além de viver uma pessoa querida por uma nação e que representa nossa história cultural, poder trazer esse sentimento para uma mãe, que perdeu um filho, é gratificante. Até hoje, eu e o Marcelo Barros, que interpreta o João, percebemos a emoção dela. Agora, ela é órfã dos dois e de certa forma, segundo a própria Lucinha diz, ela mata um pouco essa saudade quando assiste ao espetáculo.

PORTAL: Quais são os projetos futuros para esse musical?

Emilio: Continuar com ele. Agora, a gente vai até dezembro, em São Paulo. Provavelmente voltamos ao Rio, em janeiro e passamos o verão aqui. Talvez viajemos de novo com a peça, façamos, depois, mais uma temporada em São Paulo. Passamos por muitos lugares e muita gente pede para a peça ir à sua cidade. Estivemos em Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Belém, Brasília, Goiânia, também rodamos muito na época da Copa, junho e julho.

PORTAL: Antes, o que tinha de Cazuza no Emilio? Após encarná-lo e conhecê-lo, tão profundamente, o que ficou de Cazuza em você?

Emilio: Antes o que tinha dele em mim era esse conforto na arte e a convivência com os amigos, essa coisa de preservar os amigos. O Cazuza preservou os amigos, eles ficaram juntos dele até o fim. E o que ficou comigo, foi isso…exageradamente.

PORTAL: Se tiver de escolher uma música, apenas uma, das que interpreta no musical, qual melhor se encaixa com você e por quê?

Emilio: Complicado escolher. Precisaria de uma análise. Gosto muito da música “Brasil”, sinto muito orgulho de termos tido alguém que falou tudo isso. E é uma música tão atual e que infelizmente não deixará de ser atual tão cedo. É uma música muito completa, não tem nenhuma palavra avulsa, tudo faz muito sentido, também não tem nenhuma palavra rebuscada. É nua e crua.

PORTAL: Você já curtia Barão Vermelho e Cazuza antes do musical?

Emilio: Muito pouco pra falar a verdade. Porque quando comecei a ter contato com música… quando o Cazuza morreu… eu estava começando a busca independente do que eu queria ouvir, começando a me embrenhar no mundo da música. Na década de 80, eu acho que pulei pro lado B da música… ouvia mais Raul… eu também acho que o Cazuza tem uma vertente muito simplista, na forma de escrever. Ele não tem uma forma rebuscada de escrever, todas as palavras são palavras que você escuta todos os dias e ele consegue traduzir todo sentimento com essas palavras fáceis. Só que por um outro lado, as palavras fáceis, se você não parar para prestar atenção no que está sendo dito, como são uma coisa corriqueira, você deixa passar. Eu acho que fui imaturo na adolescência e deixei passar. Não parei para dar atenção. Só agora, com o musical, parei para analisar a obra dele e falei: -caramba! Talvez não tivesse sido tão intenso e nem chorado tanto no quarto… teria tido um alívio, se o tivesse escutado antes.

PORTAL: Acompanhamos o casamento dos sonhos, em fevereiro deste ano, quando você e a atriz Giselle Itié juraram amor à beira-mar, em Paraty. Você é romântico, do tipo “Exagerado, jogado aos seus pés…”?

Emilio: Não. Com ela sim. Nunca fui não. Mas a Gi é o amor da minha vida, eu descobri isso, foi ela que me apresentou esse sentimento que eu não tinha encontrado em lugar nenhum, então, com ela, eu talvez seja.

PORTAL: Sabemos que você não renovou o contrato que tinha com a Record, onde atuou em três novelas, porque ia viver Cazuza nos palcos e precisava de tempo para dedicar a esse trabalho. E hoje, você já tem planos ou convites para voltar a televisão?

Emilio: Na verdade, uma coisa não inviabilizava a outra, de maneira alguma. O que rolou é que televisão é um contrato e você se disponibiliza durante todo o período do contrato. Qualquer tipo de trabalho que passe por você, você precisará de autorização. Enfim… como eu gosto muito de cinema e de outros trabalhos, com a televisão passei três anos longe disso tudo, então eu queria um tempo, para viver isso. Então, foi viável fazer o Cazuza, rodar o longa “Linda de morrer”, com a Glória Pires, participar da série norueguesa “Lilyhammer”, na Netflix. Hoje não tenho planos de voltar a tv, alguns convites rolaram, até saíram na mídia, mas é inviável agora. Novela exige uma demanda de gravação puxada. Você acaba não podendo se dedicar bem nem a um trabalho, nem ao outro. Teria que gravar incansavelmente durante a semana e fazer a peça nos finais de semana, sem ter descanso. Acho que não poderia fazer um bom trabalho nem na peça, nem na tv.

PORTAL: Certa vez, você deu entrevista no Parque Estadual do Grajaú, mencionando ser um dos seus lugares favoritos. Você frequentou muito o bairro?

Emilio: Verdade. Frequentei muito. Sempre gostei do Grajaú, estou na Barra, mas com planos de voltar pro Grajaú. Pra mim é o lugar dos sonhos. É o lugar onde eu gosto de andar. Você tem a calmaria, não tem carro passando o tempo inteiro, muita árvore, muito verde, você está perto da cachoeira, está perto do morro, das pessoas. Um dos meus programas favoritos era andar pelo bairro, subir a Engenheiro Richard andando, ir na barraquinha do Guerreiro roubar uma frutinha…

PORTAL:  Emilio, em que fase da vida você morou no Grajaú? Deixou muitos amigos aqui? Conte-nos um pouco dos vínculos que tem com o bairro.

Emilio: Nasci e morei muitos anos no bairro, até os cinco anos, depois a família morou na Tijuca, também moramos em Vila Isabel e depois retornamos ao Grajaú. Tive uma banda que ensaiava na frente do Iguatemi, na casa do guitarrista. Minha família viveu muitos anos na avenida Engenheiro Richard. Mas eu não estudei no bairro, estudei no Martins. Tenho muitos amigos no Grajaú, mas a maioria é da Tijuca e de Vila Isabel.  Morei  um período no “Tijolinho”, nas redondezas do Grajaú, de onde só sai há pouco tempo, um pouco antes de casar. Meu pai acabou de se mudar da Praça Malvino Reis, para Barra Mansa. Mas sempre voltamos ao bairro para visitar, já levei a Gi pra conhecer e ela também adora. Um dia, quero poder comprar um daqueles casarões do Grajaú e voltar a viver aí.

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