Entrevista com Elisa Lucinda (novembro de 2014)

por Renata Couto 550 views0

lucindaPORTAL: Você veio para o Rio de Janeiro trabalhar como atriz. Mas na bagagem, já havia poesia e música?

Elisa: Havia. E foram essa poesia e essa música que saltaram da bagagem primeiro. Por várias contingências e ardis do destino, eu fui convidada a me apresentar, primeiramente, nos bares cults cariocas, no fim da década de 80 até meados de 90, quando fui partindo para um espetáculo meu. Solo de poesia nos teatros. Mas antes disso, vieram em meu socorro esses meus talentos. Como eu já tinha vindo de Vitória com muita experiência em falar poesia, coisa que eu fazia desde os 11 anos de idade e já tinha 28, me servi desses recursos para montar eu mesma, os shows onde eu dirigia, cantava, falava poesia, concebia e convidava os músicos. Tudo isso sem medo. Era a minha batalha. E fazia o cartaz e ainda colava esse cartaz nas ruas. Eu não sabia, mas estava ali o nascedouro de uma vida profissional independente e popular, que é a que eu tenho hoje. Aliás, Olhos da Cara, meu show atual e que nasceu no Bar Semente, é uma homenagem a essa pegada, a essa ousadia, a essa liberdade e a esse tempo.

PORTAL:  Você começou seu trabalho na televisão, em “Kananga do Japão”, na antiga TV Manchete, de certa forma, tardiamente, aos trinta anos. Naquele momento era o que você buscava para sua vida profissional, ou tinha outros projetos que iriam além da telinha?

Elisa: Não, eu já era curiosa para experimentar a TV como linguagem e eu tinha feito um trabalho, três anos antes, que não era novela nem nada, na Rede Globo, chamado Caso Verdade. Foi uma experiência interessantíssima, eu era uma menina assustada ainda, dentro da grande máquina, mas foi uma experiência muito rica ao lado de Everton de Castro e Luis Armando Queiroz, dois grandes atores da telemadatugia brasileira. Mas nem achei tardia. Na minha história não caberia outro enredo. Quando cheguei aqui, eu já trazia de Vitória a profissão de jornalista, um filho e um casamento, que já tinha acabado. Eu sabia que não tinha tempo a perder mas aquela novela que a Tizuka Yamasaki me chamou para fazer foi a prova inaugural que a poesia ia ser meu pistolão. Sim, porque Tizuca me viu falando poesia nos bares, os tais que eu citei na pergunta anterior, e foi aí que ela avistou em mim a Sueli, uma dançarina da gafieira Kananga do Japão, e a personagem era muito boa em dança de salão. Tinha um caso com Claudio Marzo. Foi inesquecível, um elenco primoroso e foi quando eu conheci Antônio Pitanga, Zezé Mota, Paulão, Nelson Xavier, Solange Couto, Rosa Maria Murtinho. A Manchete tinha um elenco brilhante nessa produção. Eu estava certa, a linguagem da TV é um grande exercício para o ator, ele tem que ser um repentista, um cara que resolve tudo ali na frente daquelas câmeras, com um monte de gente, fazendo outras coisas e microfones, mil trabalhadores dentro do estúdio, aquela parafernalha que o telespectador não vê, e a lágrima tem que cair. Então, a televisão, apesar de ter outras chances de gravar de novo, de repetir a cena, ela nos deixa mais espertos e nos convoca a um exercício muito específico de concentração. Uma coisa que eu não disse na outra resposta, quando você me perguntou da bagagem. É que eu achava que primeiro ia fazer teatro, novela, fazer cinema, fazer todas as outras mídias, só depois publicar meus escritos e me dedicar a minha poesia. No entanto, foi ela que veio na frente e vem me levando pela mão a todos esses lugares que eu queria.

PORTAL: Depois, foram muitos papéis em novelas na Rede Globo – “Lado a Lado”, “Insensato Coração”, “Viver a Vida”, “Páginas da Vida”,  “Mulheres Apaixonadas”, são algumas delas. Qual personagem mais deixou saudades e por quê?

Elisa: Olha, eu gosto muito da Pérola, eu acho que a Pérola é inesquecível para o Brasil, todo mundo me fala dela. É aquela cantora, mãe da Camila Pitanga, ex mulher do Tony Ramos e que cantava no Nick Bar. Aquela personagem é um divisor de águas na minha vida. Ali tive certeza que poderia ser cantora, se eu quisesse. Manoel Carlos me presenteou com essa riqueza de personagem. Na minha ingenuidade eu nem sabia que eu ia ter que trabalhar tanto. Sim, porque além dos textos, eu ensaiava as canções com a banda, gravava no estúdio essas canções e depois nas minhas cenas do Nick Bar eu dublava a minha própria voz. Tudo isso com uma atenção obsessiva de precisão, pois acho o maior mico essa “dessincronia” da palavra e da boca. Esmerei-me para não errar e acho que funcionou, porque todos a adoram até hoje. Ela já reprisou no Vale a Pena a ver de novo e acho que vai reprisar de novo, guardo essa intuição. Me inspirei na minha mãe e consegui fazer uma cantora que cantava melhor do que eu cantava  na época e era muito mais elegante do que eu. Também tenho saudades da Pérola.

Agora, foi uma escola genial também ter sido melhor amiga de Regina Duarte em Páginas da Vida, viver sobre a onda da sua generosidade, que é o máximo, seremos sempre gratas a Manoel por ter-nos dado uma a outra de presente. Somos aquarianas, somos muito semelhantes. Quando ela soube que íamos ser melhores amigas na novela, me ligou para que a gente tomasse um chá juntas e começássemos o processo. Uma linda. E ainda tem a Diva de Miguel Falabella, da novela Aquele Beijo, que eu adoro. A Diva foi uma glória para mim, eu estava com muitas saudades de fazer uma vilã. É para o ator um elemento enriquecedor e a Diva, eu quis compor, de um jeito leve, já que ela era tão má, a ponto de matar a irmã sem problema nenhum de consciência. Achei também que as pessoas que nos traem, que nos enganam, que nos iludem e que se transformam em mal feitores na história da nossa vida, em geral, não chegam alardeando a sua maldade, pelo contrário; como bons tentadores, chegam sorrindo, cativantes, e a Diva era assim: bonita, sorridente, simpática e má.

PORTAL: Quem inspirou ou inspira você?

Elisa: Citar seria injusto. Não gostaria de fazê-lo. Os mestres da gente são múltiplos e a nossa profissão é feita do aproveitamento de vários saberes. Muitos me inspiraram.

PORTAL: Por diversas vezes, em seus textos, você menciona”pai” ou “mãe”. Qual a participação que seus pais tiveram na sua formação poética?

Elisa: Toda. Eles me deram a palavra desde cedo como brinquedo. Minha infância foi cheia de histórias contadas por eles, inventadas ou não. Mas tinha Monteiro Lobato e os clássicos da literatura universal para crianças, tinha de tudo na minha casa. Era uma ambiência de livros, revistas, almanaques. Cresci achando a palavra uma riqueza. Meu pai ama as palavras, sabe latim e eu estive sempre, enquanto ele me criava, numa grande aula de português espalhada no cotidiano. E minha mãe adorava poesia e sempre cantou aquelas músicas lindas da geração deles, aqueles Lupicínios, aquelas Dolores Duran, Elizete Cardoso, Vicente Celestino, aquilo tudo soava do acordeom da minha mãe, do piano, do violão. Eu fui gerada num ventre que adorava poesia e que cantava.

PORTAL: Como surgiu a peça “Parem de falar mal da rotina”, um de seus maiores sucessos, que emplacou mais de 11 anos em cartaz e rendeu a versão literária, em 2010?

Elisa: Surgiu de um convite de Amir Haddad, o nosso grande mestre de teatro, para que eu fizesse uma temporada para formação de plateia no Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes, em 2002, onde ninguém ia à noite. Por minha vez, eu tinha voltado da Espanha onde eu havia me apresentado no Festival SITGS e o jornal La Vanguardia disse que as pessoas saiam do espetáculo com a sensação que tinham ido na sala de minha casa. A matéria elogiava muito o meu jeito de interpretar, digamos, coloquial. Então, como eu tinha liberdade para criar, e cheguei ao Brasil querendo fazer uma coisa que eu tinha feito lá fora, aceitei o convite do Amir. Fiz o roteiro de poemas do “Eu te amo e suas estreias”, livro que havia publicado antes e que me ensinara que nada se repete. Botei uma banheira no palco, entrei nua nela e mandei ver. As cenas foram nascendo a partir das tentativas de fazer ligações entre um poema e outro, e quando vimos, tínhamos uma peça maravilhosa que lotava o teatro Carlos Gomes e fazia meu produtor querido, João David Miguel, rir de orelha a orelha. O que ninguém sabia é que aquela produção, de terça e quarta à noite, lançada no centro da cidade abandonado, ia fazer tantos anos de sucesso. Ano que vem já faz treze. Já virou livro e este vai ser reeditado pela editora Record. Uma coisa inacreditável esse espetáculo. Axé Babá.

PORTAL: Quando uma peça tem a repercussão e a resposta imediata do público, deve ser o maior retorno desejado por um artista. No seu caso, foram vários momentos de sua carreira em que pôde sentir isso. Qual deles foi o mais marcante?

Elisa: Ai, existem tantos números de plateia que me emocionaram, gente da terceira idade que já viu a peça inúmeras vezes, sabendo que são três horas! Ai, eu carrego muitas emoções do Parem, histórias com crianças. Uma vez uma criança chamada Pedro, eu acho que foi em Angra isso, não me lembro, estava chorando na plateia no colo da mãe, com dois anos e eu o chamei, perguntei-lhe se queria subir ao palco. Perguntei o que ele tinha. Disse-me o que queria e eu fiz a cena toda do poema Menino São José, contracenando com ele. A plateia entre lágrimas e delírio. Tenho também uma sessão antológica no Parque das Ruínas, em Santa Teresa, há mais de dez anos. Foi tão lindo que parece que foi um sonho, quem esteve lá, soube. Uma mulher que levantou da plateia em Barcelona, no último dia, depois de mais de oitenta apresentações “olha, minha filha, eu troquei minhas pílulas anti depressivas por uma sessão desse espetáculo por dia. Eu vim todos os dias”. E a outra muito inesquecível foi meu pai subindo no palco do Canecão, convidado por mim para receber as flores de minha gratidão. Ele que me apresentou o Canecão quando eu tinha 16 anos, a mim e a meus irmãos, viemos lá de Vitória assistir “Brasileiro Profissão Esperança”, com Paulo Gracindo e Clara Nunes. Quando eu vi músicas e poesias num só show assim pensei: pode? Então é isso que eu quero.  Então, estar ali no canecão anos depois, ele super orgulhoso de ter feito parte daquilo, fez um discurso que arrebatou o canecão. Grande negão, doutor Lino.

PORTAL: Sabemos que um livro é quase como um filho. Mas dentre suas obras publicadas, com qual você mais se identifica?

Elisa: Ah, agora com “Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada”. Estou totalmente tomada por essa experiência que, por incrível que pareça, fez-me ir ao mais fundo de mim, ao ser Fernando. Nada mais tenho a declarar.

PORTAL: Você também já escreveu para as crianças: “O órfão Famoso”, “Lili, a rainha das escolhas” e “O menino inesperado”. Como foi entrar no universo infantil? O que as crianças lhe ensinaram?

Elisa: Esses que você citou fazem parte da coleção Amigo Oculto, viu como citar é ser injusto? Faltaram A Dona da Festa e A menina transparente, vou continuar essa coleção ad infinitum. Ela é um jeito de tratar os assuntos do ser humano, existenciais, numa abordagem para crianças. Sei que interessa muito aos pais dos meus leitores adultos que seus filhos conheçam o meu pensamento desde sempre, pelo menos é o que escuto por aí.  Meus livros infantis são em forma de poesia e são histórias e adivinhações. Um dos que eu mais amo, é o “Órfão Famoso”. Ali, entendi que coleção desejava fazer. Queria diminuir o peso na mochilinha das crianças. Elas são os meus professores de espontaneidade, de verdade e liberdade de criação. O código da criança tem o seu laboratório no parque infantil da sua imaginação e com suas compreensões de estreias, renovam o mundo. São os poetas originais e naturais. Toda criança é poeta. Umas mais que as outras, até que chegue um adulto e… Trago um monte de crianças em minha alma e em mim. Sem elas, eu não sou nada.

PORTAL: Você fundou a Casa Poema, no Rio de Janeiro, em 2010, junto a também atriz Geovana Pires. Quais os objetivos da Casa?  Que trabalhos vocês têm desenvolvido?

Elisa: O objetivo da Casa é alinhar-se no caminho firme da arte educação para o desenvolvimento do ser humano em diversos setores da sociedade. Entendemos que a poesia com conteúdo é em si um celeiro de bandeira ética, humanística, cheia de compaixão pelo seu semelhante. Raramente se vê uma poesia que conclame a morte das criancinhas ou que incite o mundo à guerra. Não. Os poetas são românticos, justiceiros, tiram poesia de todas as coisas, tiram fotografias da miséria humana através de suas palavras de reflexão sobre o mais sofisticado e sobre o mais banal. Além desse conteúdo a expressão da poesia falada, especialidade da Casa Poema, é o nosso método principal para a eficácia dessas palavras na evolução do indivíduo no caminho do seu auto conhecimento. São incríveis as coisas que acontecem dentro da Casa, nas oficinas. Pessoas de todo o tipo e profissão, médicos, bancários, engenheiros, enfim, estudantes, e de qualquer idade, experimentam uma certa viagem pelo universo de si mesmo pela narrativa de sua história sob a luz que a poesia derrama sobre nós. Há pessoas que consideram a escola um divisor de águas em suas vidas, pois a partir daí souberam o quanto estavam travadas, aprisionadas em modelos oficiais de expressão e até desconectadas com seu próprio discurso. Esse trabalho que acaba reconstruindo o cidadão, ativando o seu lugar de protagonista, na Casa Poema ganha várias estradas em vários programas: temos o Versos de Liberdade, iniciativa que, com o apoio da Fundação Ford nessa parceria da Casa Poema e a Secretaria Municipal do Rio de Janeiro, desenvolve essas oficinas transformadoras no ambiente escolar visando discutir as questões raciais dentro da escola através da poesia; temos o Versos de liberdade com o foco na recondução ao caminho do sonho para os meninos que estão cumprindo medidas sócio educativas em Salvador, Bahia, sendo esta uma parceria da Casa Poema com Fundação José Silveira e OIT; por fim, com a OIT temos também o projeto Palavra de Polícia, outras armas, que alinha humanisticamente as ações de segurança à pratica dos direitos humanos, tudo isso por meio da poesia falada, creia-me.  Sem contar o funcionamento cotidiano da Casa, feita nos cursos regulares e de workshops no Rio de Janeiro, no país e fora dele. Esse ano nós estreamos o Minha Casa Poema, estamos experimentando o formato. Trata-se de pequenos núcleos de cada cidade ou estado, grupos de pessoas que queiram estar mais próximos da poesia, que queiram aprender a falar poesia de um jeito bacana, sem ser empostado, de um jeito coloquial, que não lembre em nada aquelas declamações antigas que a gente não entendia nada, essas pessoas se comunicam com a gente através das nossas redes sociais e a gente organiza oficina ou encontros periódicos com esse grupo. Eu e minha equipe de professores, capitaneados por Geovana Pires, nos deslocamos até a cidade que pediu e a coisa acontece. É como uma franquia desburocratizada artesanal. Vamos experimentando. A vida é assim, inédita.

PORTAL: Elisa, você traz a poesia para a vida das pessoas com muita naturalidade. Tornar a poesia popular é a melhor maneira de ser ouvida e atingir um maior número de pessoas. Você sempre fez isso ou foi algo que descobriu e aperfeiçoou com a experiência?

Elisa: Eu sempre fiz isso e quando descobri que o mundo se interessava pelo meu jeito de dizer poesia eu o aperfeiçoei com a experiência. Aliás, venho aperfeiçoando. Na verdade, como eu conheço essa abordagem coloquial da poesia desde pequeninha, pra mim é fácil já pensar a poesia sem esse jeito anti natural de dizê-la. Em verdade, é a conversa humana despretensiosa, aquele papo que a gente bate com a vizinha no portão. É daquele jeito, com aquela despretensão, que se deve dizer um poema. Quem conta qualquer coisa está a serviço da história, e não o contrário.

PORTAL: Elisa Lucinda “multifacetada”: atriz, jornalista, professora, escritora, poetisa e cantora. Com qual de suas faces você mais se identifica? Por quê?

Elisa: Eu sou todas. Tudo isso que você descreveu traduzem minhas ações e eu faço tudo isso, canto, danço, escrevo poesia, mesmo sem ninguém olhando, mesmo sem público. Isso é o que eu sou e o bom é que eu levo o que eu sou para ser minha obra e o pessoal ainda me paga (risos). Estou brincando, em verdade o que quero dizer, é que eu tenho muito prazer em fazer o que eu faço. Exerço o meu trabalho com amor. Gosto muito de ser poeta porque é a mais independente de todas essas ações que eu falei. Há lugares em que não posso cantar, mas ninguém me impede de fazer uma poesia de cabeça, esteja eu, onde eu estiver. A poesia é a mais livre de todas as artes.

PORTAL: Em “Olhos na cara” você traz “poesia cantada” e música ao público, num repertório que vai de Noel Rosa e Cartola a Chico César e alguns nomes da nova geração. Quais são os projetos para esse novo trabalho?

Elisa: Olhos da cara é um projeto muito radical, ousado, quase inocente, mas nasceu tão despretensioso que é até estranho falar isso dele. É radical e ousado porque não tem nenhum músico e são mais de trinta canções. É uma experiência que eu sempre quis fazer. Uma homenagem a minha mãe que cantava muito bem à capela e encheu a minha casa, casa da minha infância, dessa voz afinada, ecoando entre os afazeres. Tem também a experiência de meu filho, que foi quem sugeriu a música Olhos da Cara e que deu o título ao trabalho. Ele dirige e concebe o espetáculo junto comigo, uma honra para uma mãe. No entanto, nascido nessa simplicidade, estreado em um bar, como foi no começo de minha carreira no Rio, ele já está apontando sua direção para uma vida não muito curta, mal nasceu e já vamos para a sala Baden Powell, em Copacabana, a convite desse teatro. Convite feito no penúltimo show, no Bar Semente. Parece até mentira, não fizemos edital, usamos só os nossos saberes, a união de artistas: o preparador vocal Ronald Valle, meu amigo querido, a luz de Geovana Pires, a foto de Simone Portellada, a câmera de Luiza Cassano, a dedicação da produção de Taís do Espírito Santo e assessoria de Raquel Corbetta. A união dessa gente deu uma consistência incrível ao resultado. Sem contar com os convites que já vieram de Salvador, São Paulo e Brasília. Um luxo. Há tão pouco tempo era sonho.

PORTAL: Você sempre que pode, levanta a bandeira contra todo tipo de preconceito. Você já sofreu ou sofre preconceito? Acredita que estamos caminhando para um país mais livre e mais igualitário?

Elisa: O Brasil está ainda capengando. Diante de tantos avanços como o sistema de cotas, por exemplo, eu tenho visto uma certa discussão fundamentalista, uns equívocos dentro do pensamento do próprio movimento negro que nesse caso da série “Sexo e as negas”, que ao meu ver, deu um belíssimo tiro no próprio pé. Vi ontem um episódio e adorei. Por causa dessa postura atrasada de alguns segmentos do movimento negro é que “Amor e Sexo”, que está na televisão brasileira, continuará, por muito tempo, sendo para brancas estrelarem. Enquanto a gente achar que não se pode falar da sexualidade das mulheres negras, ainda que com respeito, enquanto o Brasil, como um todo, não entender que “somos todos iguais nessa noite”, ainda temos muito o que trilhar. Tenho feito a minha parte.

PORTAL:  O que você acha do sistema de cotas raciais nas universidades públicas?

Elisa: Cota é inclusão e é processo. Ninguém quer o sistema de cotas como exemplo, mas em uma sociedade em que o sistema de cotas para brancos está em atividade, onde a preferência do mercado está centrada no ideal, no branco escondido sobre o critério de boa aparência, nada mais justo, que um sistema de cotas para preto também.

PORTAL: No livro “Fernando Pessoa – O Cavaleiro de Nada”, recentemente lançado, você tece a autobiografia e encarna o poeta com propriedade. Qual sua relação com Fernando Pessoa?

Elisa: Ele sempre rondou o meu pensamento desde que o conheço. Desde quando eu era menina. Ele também faz parte dos meus momentos iniciais de teatro porque o “Marinheiro” foi a primeira peça que eu fiz na minha vida. Sua poesia autorizou a minha, me deu mais maturidade para compreender as possibilidades de um poema.

PORTAL: Você lançou em sua página no facebook uma campanha, “Eu também quero ler”, em que a pessoa posta um trecho do livro em que está lendo e faz um comentário. Você sempre busca essa aproximação com o seu público? Teve algum momento em que algum fã ou leitor seu a emocionou? Conte-nos.

Elisa: Teve, minha flor, mas agora eu não me lembro de um especificamente. Muitas pessoas choram quando me encontram, relatam histórias de meus textos ligadas a perda de um ente querido ou ligadas a encontros amorosos. Não são poucos os relatos, não há emoção maior do que fazer uma arte que serve para a vida do outro que você nem sequer conhece, nem imagina que exista.

PORTAL: Você já tem planos ou convites para voltar a televisão?

Elisa: Sim e não. Eu ia fazer uma novela onde seria pela quarta vez a mãe da Camila Pitanga, que será a próxima, que sucederá “Império”, mas conclui-se, ao final, que poderiam ser mais criativos e achar outra mãe para ela. Mas, há um convite para escrever uma minissérie e um outro que é um projeto meu de um programa. Por isso que é sim e não.

PORTAL:  Elisa, você estará no palco do Imperator, no Méier, em janeiro de 2015, com a peça “Parem de falar mal da rotina”, certo? Será uma única apresentação? Algum outro plano para essa peça?

Elisa: Estou muito feliz de fazer no Méier. É a primeira vez na Zona Norte e há muita expectativa. Vai “bater maior bolão” o espetáculo é popular. Não, não será uma única apresentação, serão três finais de semana a partir do dia 23 de janeiro. Essa peça, cujo o título começa com o verbo parar, não para nunca. Devemos ir a Portugal no segundo semestre e com “A natureza do olhar”. Há também um convite para fazer em São Paulo, mas nada impede que ela vá ao seu bairro amanhã.

PORTAL:  Em que fase da vida você morou na Tijuca? Alguma passagem pelo bairro do Grajaú?

Elisa: A Tijuca foi minha primeira morada no Rio. Infelizmente, ainda não morei no Grajaú, acho um bairro lindo. Chique.

PORTAL:  Deixe-nos uma frase, um verso ou uma reflexão. Porque não há como entrevistar você e não querer ouvir uma de suas poesias…

“Última moda

Esta roupa não me serve

aquele uniforme não me cai bem

não quero essas regras

não mereço

não quero essas formas

essas ordens

essas normas

esses panfletos

o que pode ser dito

o que não deve ser falado

o importante não dito

o que  deve ser feio

o que pode ser bonito.

Algemas nas correntes estéticas

não me interessam

não quero esses boletos

essas etiquetas

esses preços

esses compromissos.

Não tenho código de barras

não tenho marcas

comportamento,

não caibo nestas caixas

nestas definições

nestas prateleiras.

Quero andar na vida

sendo a vida pra mim

o que é para o índio a natureza.

Assim vôo,  pedalando solta

na estrada do rio da beleza

nos mares da liberdade alcançada, essa grandeza.

Em tal grandeza meu corpo flutua…

Nos mares doces e nas difíceis águas da vida crua

minha alegria prossegue, continua.

Despida de armas e de medos

sou mais bonita nua.”

Elisa Lucinda (2 de julho de 2014)