Entrevista com a Banda Suricato (março de 2014)

por Renata Couto 394 views0

suricato“A gente continua sonhando um tanto… a gente ainda não chorou tudo que ganhou”

“O Suricato passa longe de animal nativo, mas não está aí para ser um estranho na paisagem”, assim se define o grupo carioca com nome de bicho africano. Uma banda tipicamente brasileira, miscigenada, que traz raízes nacionais e influências do country, do blues e das diferentes estradas percorridas por Rodrigo, Gui, Rapha e Pompeo. Sucesso absoluto no programa “SuperStar”, na rede Globo. “Sol-te”, o novo trabalho da banda, deixa evidente essa essência mistureba do brasileiro. “O Suricato é uma banda com voz própria. Pronta para ser solta no mundo”, declara Rodrigo Suricato, fundador da banda, num papo informal com o Jornal Portal.

PORTAL: De onde veio a ideia do nome Suricato? Por quê?

Rodrigo Suricato: Eu gostava muito de um seriado chamado “No Reino dos Suricatos”, um tipo de “big brother” dos suricatos. O nome do bicho ficou na minha cabeça. O comportamento do suricatos, lembra bem o que é a banda, as divisões de tarefas e uma hierarquia não bem definida, o tempo todo.

PORTAL: Rodrigo Suricato, vocalista, fundou a banda. Quando e como foi o início de tudo?

 Rodrigo Suricato: A banda foi fundada há 4 anos, mas antes disso, eu já tocava com muitos artistas. Fazia muito “violão e voz” em barzinhos, a partir daí, eu passei a cantar. Comecei a me arriscar a fazer algumas composições, buscava montar um núcleo criativo e não um trabalho solo. Eu sou um cara mais do coletivo e montei o Suricato para que fosse o lugar onde eu pudesse me expressar pelo resto da vida.  Como eu sempre acompanhei muitos artistas e viajei muito tocando com eles, foi muito natural que eu os convidasse para tocar junto.

PORTAL: Quem são os Suricatos?

Rodrigo Suricato: Eu (Voz, violão, guitarra, mala bumbo, banjo, weissenborn, ukulele e gita), Gui Schwab (didjeridoo, weissenborn, viola caipira, gaita, violão e banjo), Pompeo Pelosi (Percussão e bateria) e Raphael Romano (Baixo e percussão), somos nós.

PORTAL: Quem eram Rodrigo, Gui, Pompeo e Raphael, antes de serem Suricatos?

 Rodrigo Suricato: Todos já trabalhávamos com música. Eu trabalhava com muitos músicos. O Guilherme eu conheci por meio do trabalho dele com o Ritchie, de “Garota Veneno”. A gente dividiu o palco várias vezes, viajando pelo Brasil. Tínhamos afinidades. Nós dois somos pesquisadores de instrumentos. O Pompeu foi baterista da banda do meu irmão, então, a gente já se frequentava, éramos amigos de longa data. Raphael foi uma das minhas primeiras opções para a Suricato. Quando a primeira formação da banda se desfez, tínhamos amigos em comum. Éramos todos da mesma panela, de uma mesma galera. Eu toquei por uns oito anos na Banda “Fato Consumado”, banda que toca até hoje no Buxixo, no baixo Tijuca.

PORTAL:  O som da banda Suricato, tem personalidade e traz ao cenário musical algo novo, que estava faltando. Como nasceu a ideia de misturar tantas influências e sons?

Rodrigo Suricato: Veio da nossa pesquisa pessoal. Antes de tudo, já éramos todos músicos. Antes de sermos artistas, ouvimos muita música. Foi natural que aplicássemos nossa pesquisa musical na Suricato. Usamos a Suricato como uma “válvula de escape”, onde podemos expressar o que gostamos de fazer, música popular. De certa forma, atraiu a atenção e a curiosidade do público, porque trouxemos esses elementos “estranhos” numa linguagem pop, popular.

PORTAL:  Quais as principais influências musicais de vocês?

Rodrigo Suricato: A gente escuta muita coisa, está antenado no que está rolando. Referências de criança… Beatles, Led Zeplin (ouvíamos muita música americana) e nacional… Paulinho Moska, Lenine, Barão Vermelho, Nando Reis, Lulu Santos… pessoas que mais adiante viraram nossos amigos.

PORTAL: No início da trajetória, já imaginavam estar onde estão hoje?

Rodrigo Suricato: Na verdade, acho que todo artista se prepara para viver um momento como esse, em algum momento da vida. A gente faz coisas que já fazíamos antes, a gente adora tocar, adora viajar, só que agora fazemos isso em maior escala, com maior reconhecimento. Quando montei a Suricato ela já era um projeto muito bem definido. Não me dispersei do foco de onde eu queria chegar como banda, como núcleo criativo. Acho que isso ajudou bastante. E como já tocávamos com muitos artistas, isso se tornou um canal muito fértil para que aproveitássemos as oportunidades. Inclusive quando surgiu a possibilidade de tocar no programa “SuperStar”. Eu tocava no programa  “The Voice Brasil” e conhecia todos os produtores. Apresentamos a banda a eles e quando surgiu a oportunidade de participar do programa “SuperStar”, já conheciam nosso trabalho. Estávamos montando o novo formato da banda e fomos convidados. Então, fomos estrear ao vivo.

PORTAL: Quais os sonhos e projetos da Banda?

Rodrigo Suricato: O sonho de qualquer artista é poder se expressar de uma forma que ele possa ter disso sua sobrevivência. Viver de música num país como o Brasil é uma tarefa de muita perseverança, tem que ter estômago. É um país que está se descobrindo ainda contratante, se profissionalizando. Muitos palcos pelo país ainda são bastante precários, a gente tem que viajar, a gente quer conhecer as pessoas e levar nossa música adiante. Nosso sonho é esse, viver da nossa arte, com uma certa tranquilidade para poder nos expressar da maneira que a gente quer.

PORTAL: Qual o som nacional que contribuiu com a bagagem musical dessa banda?

Rodrigo Suricato: Acho que não diretamente. Os sons influenciam não de uma maneira superficial e sim de uma maneira estrutural. Sustentam você, como uma raiz de árvore, sustentam e não aparecem. Nando Reis, Lulu Santos e Paulinho Moska foram os grandes pilares nacionais que contribuíram para a Suricato chegar onde chegou.

PORTAL: O que mudou após o sucesso, no programa “Superstar”, da Globo?

Rodrigo Suricato: O que mudou foi a possibilidade de conhecer muita gente e o Brasil, tocando nosso próprio trabalho,  a percepção de como as canções são importantes e influenciam na vida das pessoas. Todos ficaram conhecidos. Saímos da pilha de músicos e ganhamos um reconhecimento. Por conta da visibilidade ganhamos um público muito grande. Ganhamos uma credibilidade da crítica que normalmente não é dada a músicos que saem desse formato de programa. A crítica tem sido favorável, as pessoas estão entendendo o nosso trabalho.

PORTAL: A que vocês atribuem a aceitação e empatia imediata do público com vocês?

Rodrigo Suricato: A gente não faz ideia. A gente faz tudo que faz com muita sinceridade. É claro que a gente encaixa o nosso formato para ser algo mais popular e para que as canções tenham uma certa duração. Mas acho que o discurso de que tenhamos uma letra que nos represente e não ficar fazendo uma coisa poética com finalidade de agradar, talvez tenha sido um ponto positivo.

PORTAL: Dinho Ouro Preto, vocalista do Capital Inicial, elogiou muito a banda, durante as apresentações no programa. Ele ou outro grande nome da música ajudou o grupo nessa caminhada?

Rodrigo Suricato: Quem ajudou diretamente na inserção da banda no mercado, foram Nando Reis, que abriu espaço, nos convidou para abrir os shows dele e cantava com a gente, o Lulu que gravou uma versão de “Um certo alguém” e cantou conosco no clip, o Paulinho Moska que sempre nos incentivou e assina uma das letras de nosso disco. Os jurados do programa, claro, ajudaram bastante, mas a grande surpresa foi a Ivete Zangalo, quem mais enalteceu nosso som. A música não pode ter barreiras, a música clássica já foi a Ivete Zangalo de algum dia, o Jazz já foi a Claudinha Leite de alguma era, o que a gente faz é música popular. Não existe gênero alternativo. Alternativo é o que não toca, o que não é o nosso caso.

PORTAL: O novo trabalho de vocês “Sol-te”, gravado no estúdio Toca do Bandido, no Rio de Janeiro, imprime o “folk” que vocês queriam deixar registrado? O que podemos esperar desse Cd?

Rodrigo Suricato: É um disco conduzido pelas levadas do violão. Tem o violão em primeiro plano. Um disco de canções, todas autorais. Exploram as sonoridades e instrumentos diferentes que a banda usa na linguagem popular. É um disco gostoso de ouvir. Não é aquele disco que você precisa correr pra diminuir o volume do som. Tivemos a preocupação de que o disco tivesse um som agradável, também com as letras, com a poesia.

PORTAL: A faixa 2, “Trem”, traz a parceria entre Rodrigo e Gui e toda influência do Blues. Quais as suas raízes “blueseiras”?

Rodrigo Suricato: Eric Clapton, Jimmy Page, novo trabalho do Led Zepplin. Ouço muito ultimamente um guitarrista chamado Doyle Bramhall II. E os clássicos… B.B. King… Não tenho influência direta dos bluseiros nacionais, mas admiramos muito o estilo e conheci vários deles pessoalmente, já toquei com Celso Blues Boy.

PORTAL: Vocês já “ganharam tudo que rezaram”, como diz a bela canção “Um tanto”, ou vocês continuam “sonhando um tanto”?

Rodrigo Suricato: A gente continua sonhando um tanto… a gente já ganhou muita coisa, acho que a gente ainda não chorou tudo que ganhou… (risos) O barato é você ser feliz com sua família, com seus amigos, se preocupar em ser uma pessoa bacana, por que é isso que fica, a gente não sabe se vai ter uma carreira pro resto da vida, mas sabe que pode ter família e amigos pro resto da vida, amor no coração pra toda vida, é isso que dura…

PORTAL: Quais os projetos para a divulgação desse novo Cd?

Rodrigo Suricato: Viajar o Brasil inteiro pra poder tocar. Conhecer as praças, conhecer as pessoas. Receber o abraço que as pessoas estão dando em relação as nossas canções. Muita gente tatua algumas frases da banda pelo corpo, a gente está até se acostumando com isso, recebe com alguma estranheza.  As canções modificam mesmo a vida das pessoas, a gente tem que levar isso em consideração. Temos muito carinho e respeito com isso, a gente quer conhecer as pessoas, receber esse abraço, ter um milhão de amigos, como diz o Roberto…

PORTAL: Por que vocês se consideram “estrogonofe com feijão”?

Rodrigo Suricato: O brasileiro gosta de misturar as coisas, sem nenhum critério. Ele não tem muito uma regra estética para combinar nada, nem cores, nem comida. É uma característica do nosso povo, por ser tão miscigenado, aceitar e conviver bem com as diferenças.  A Suricato nesse sentido, é uma banda brasileira e mistura as coisas sem nenhuma coerência. Temos instrumentos australianos na banda. A gente toca com uma mala bumbo, que é muito comum, e mistura tudo isso, numa linguagem um pouco mais pop. Tudo faz a banda ficar o que chamamos “estrogonofe com feijão”, que entendemos que seja o não ter medo de misturar as coisas… Somos uma autêntica banda brasileira.

PORTAL: Quando e onde teremos show da Banda Suricato, aqui no Rio?

Rodrigo Suricato: Estaremos dia 27 de março, no Imperator, no Méier. E estaremos buscando tocar em outras praças…

PORTAL: Soubemos que os Suricatos estiveram ensaiando em estúdio no Grajaú. Algum vínculo com o bairro?

Rodrigo Suricato: Na verdade estive num estúdio, no Grajaú, pois estou produzindo umas faixas da Banda tijucana “Fato Consumado”.